domingo, 31 de dezembro de 2017

As Atividades (Energias) Divinas Segundo São Máximo o Confessor (Doutrina do Cristianismo Oriental)

por Gabriel Tossato
(reproduzido com a devida permissão)

Para São Máximo, o confessor, os princípios naturais internos das coisas criadas são uma energia incriada de Deus (logoi).

"Toda a criação participa na energia criadora de Deus, embora nem toda criação participe na energia glorificadora". (Nesta última apenas os santos e os anjos participam).

Logo o princípio que sustenta e atualiza toda a realidade é incriado, e inexiste algo na criação que foi deixado sob o governo de sua "natureza natural"(criada) e existe por si próprio, ao contrário, seu princípio interno é uma energia de Deus.

É nessa chave que os Padres gregos comparam a natureza da criação ao episódio da sarça ardente e dizem que não há uma "natureza" em que a sobrenatureza seja algo externo e agregado.

"De acordo com São Máximo, a criação do mundo em si é uma Revelação. É a própria Revelação natural. A essência dessa Revelação é a misteriosa presença do Logos nos logoi das criaturas. Isto é considerado por São Máximo como sendo uma Encarnação do Logos. Às vezes ele fala sobre a tripla encarnação do Logos: na natureza, na Sagrada Escritura e na pessoa histórica de Cristo (...) [sem no entanto] considera[r] a revelação como a divisão escolástica entre natural e supernatural, mas [como] uma única manifestação do mesmo Logos em três diferentes estágios."

Sobre a Praxis Genuína X A Erudição Balofa

Em nossos tempos hiper-intelectualizados a erudição balofa, ou a redução de tudo ao intelectualismo simples e ao academicismo, toma conta de nossos campos.

Isso em si já era um problema da Escolástica Católica, e da compreensão limitada da mente dada por Agostinho e São Tomás que relegou tudo ao intelectualismo.

Mas vejamos bem. Antigamente, quando não havia impressão de livros, a via oral era vista como a forma mais confiável para a transmissão de qualquer corpo de dados. Tanto é que no antigo Império Otomano, a transmissão oral tinha precedente sobre a palavra escrita.

Ter livros em si, era difícil e caro. Assim como saber ler e escrever, em geral, o que dava às bibliotecas enormes de potentados da época uma dimensão ainda mais prestigiosa do que hoje em dia.

Com a invenção da prensa, e a democratização do livro - em paralelo ao surgimento do Protestantismo - pela primeira vez houve uma ruptura neste precedente, e a dimensão da palavra escrita começou a inflar-se de forma além do que costumava ter.

Mas o problema maior com isso está associado ao fato de que nem tudo que é posto no papel pode ser compreendido sem ser devidamente ensinado em primeiro momento. Esse processo, que é sempre demonizado e distorcido pelos modernos como uma forma de exercer coerção e controle psico-espiritual sobre as massas, se esquece que com o advento da palavra escrita em massa tais meios de coerção simplesmente assumiram formas bem mais massivas e onipresentes hoje em dia.

Quem não conhece o poder da mídia hoje em dia não tem cabeça pra entender o que eu estou falando. As dimensões de tal poder e controle são muito maior que as antigas autoridades tradicionais, como reis e papas, jamais poderiam sonhar em exercer em tempos passados.

Mas retornando ao ponto principal, a transmissão oral - longe de ser uma forma de controle e coerção - era também uma forma de docência que garantia a cadeia ininterrupta, fiel e própria de transmissão de dados, incluindo dados espirituais.

Por isso mesmo a vivência junto do Mestre, da autoridade religiosa, e seguir seus preceitos e ensinamentos constitui um feito tão importante quanto possuir e ter noção dos escritos canônicas de uma dita, uhmmm, "forma tradicional" no sentido guenonete da palavra.

A vivência da espiritualidade é tão ou mais importante que sua mera compreensão intelectual, em caixinhas armazenadas na mente, senão bem mais importante. E essa vivência que proporciona, em si, a transmissão oral daquilo que não está escrito ou que não pode - pelo seu caráter velado ou simplesmente prático, operacional, supra-racional, etc... - ser reduzido a uma exposição simplificada em um meio escrito qualquer.

Assim, os academicistas que se dignam a estudar religião comparada ou que passam horas lendo tomos sobre essa ou tal religião devem ter em mente que o processo de compreensão - por inteiro - envolve mais do que a plena aquisição intelectual de certos conceitos e sim a devida intelectualização destes por meio de sua vivência junto a quem sabe e/ou quem também pratica.

A erudição balofa, ou mesmo aquela erudição de passatempo que busca coletar e agregar toda uma variedade de dados de tudo enquanto que ignora os pontos sutis e essenciais do que falo, no final das contas, não leva à nada e o seu resultado é a esterilidade espiritual típica das cátedras de sábios deste mundo.

sábado, 30 de dezembro de 2017

A ORIGEM DO TERMO 'METAFÍSICA'

Segundo as informações que temos, a própria origem do termo Metafísica é algo completamente equivocado.

Nem Platão, nem o Estagírita o usam. Vemos então que o termo passa apenas a ter uso quando Andrônico de Rodes, fazendo a coletânea completa de Aristóteles, tem alguns livros que não podem ser classificados como sendo da "Física". Ele então passa a nomeá-los como "Ta Meta Ta Physika", ou seja "Aqueles que Vem Depois da Física".

Só depois que o termo aglutinado cola como "Meta-physis", ou seja, uma ciência em si.
Vale a pena lembrar que nada do que os autores perenialistas, ou quase nada, considera como realidade supra-racional pode ser classificado como "metafísico".

Aliás não existe esse termo na maioria das religiões orientais. Guénon o usou de forma equivocada, podendo ter elaborado um termo melhor. Já em tratados originais, esse termo quase não tem nenhum uso, exceto dentro os discípulos árabes de Aristótteles - vis Ibn Rushd.

Platão não usa este termo, com certeza. Nem os pais da Igreja do deserto, tendo este termo adentrado o Cristianismo latino só depois da Escolástica.

Ou seja, a maior parte daquilo que concebemos como sendo "a estrutura fundamental da Realidade", como a base das religiões, e esse tra-lá-lá todo, é na verdade um termo completamente equivocado e um conjunto de especulações abstratas que não leva a nada.

É deste erro, e do aristotelismo de carteirinha ingênuo da civilização ocidental, que vê brotar as confusões e os equívocos do racionalismo moderno.

domingo, 24 de dezembro de 2017

O PROBLEMA DA REALIDADE

A realização de que o esoterismo, como via, é a função máxima de todo o ser humano foi algo que me veio à tona somente aos poucos.

Em um dos meus excertos sobre a natureza da realidade e da metafísica, apresentei meus argumentos sobre o que constitui conhecimento, o que é a realidade e qual o papel e função do homem moderno dentro disto tudo.

Desde minhas leituras de Heidegger, até minha idealização mais profunda sobre o assunto, diante de um emaranhado confuso de especulações ontológicas de todo o tipo, uma coisa sempre destoou: o irrealismo fundamental que o homem moderno, supostamente o homem mais racional e correto da história conhecida, apresenta como sua ciência fundamental.

A metafísica sempre se apresentou, desde os tempos do discípulo aristotélico Andrônico de Rodes, como uma espécie de “filosofia primeira”, a basal que daria a fundação central a todos os elementos do Saber humano, ou seja a ciência do Ser, a ciência do Real.

Porém, há uma problemática total sobre esta visão, que já expus em outros lugares. E que não deixarei de reiterar aqui.

Não só a ciência supostamente mais basal e fundamental tem se fragmentado, ela tem sido completamente ignorada e desprezada pelos modernos.

O homem moderno, preso em suas aplicações industriais do conhecimento, já não tem noção do que é aquilo que serve de mais fundamental para o conhecimento dele, aquilo que supostamente valida toda a pretensa superioridade de sua racionalidade totalizante, e do conhecimento da nossa época.
E qual o motivo disto?

Já em Heidegger, assim como em Nietzsche, detectamos que a tendência principal da nossa ciência do Ser consiste no chamado movimento da subjetividade.

Ou seja, para resumir aquilo que uma autoridade bem versada no assunto te diria, a compreensão moderna do cosmo é fundamentalmente irreal, subjetiva, quase um sonho. O sonho da consciência egoica pensante, que se expande indefinidamente, buscando apenas o controle total das coisas.
Existe, então, metafísica? A resposta é não. O real é racional, o racional é real, e tudo age segundo leis ontológicas totalmente racionais e previsíveis?

Não.

Pelo contrário, este tipo de concepção somente se cimenta na psique humana num período bem tardio, não antes do Iluminismo e do idealismo germânico, de fato.

Cai por terra, então, o fundamento moderno do nosso conhecimento das coisas como sendo algo totalmente relativo. Vemos então que o homem moderno é o homem, que buscando uma emancipação completa dos mitos na racionalização total do Cosmo, acaba por cair em mais uma série de mitos e na bagunça das próprias projeções psíquicas. Ou seja, é este o homem que, visando a objetividade em tudo, termina por resvalar no poço da mais profunda subjetividade, cavando esse poço duma forma mais profunda que o homem arcaico, “tradicional”, com suas mitologias aparentemente simplórias sobre o cosmo, jamais sonhou em alcançar.

Diante desta realidade, qual a tarefa do legítimo buscador de conhecimento? Acordar, pois, e fugir do poço, já que há um Sol lá em cima.

A estruturação da filosofia primeira, em seus maiores expoentes, mormente a escola peripatética, sempre buscou dentro das abstrações metafísicas a essência das coisas. Ou seja, a sua presença.
Esse é o erro em que caem aqueles que buscam fundamentar a fé na razão, sem ter noção que essas abstrações não passam disso: de meras abstrações, algo condicionado e limitado à mente.
Sendo assim, depois deste questionamento profundo, podemos novamente nos questionar: o que é o Ser? Veremos que esta pergunta, lançada desde os princípios da filosofia humana, continua até hoje sem resposta.

O homem moderno, então, não tem a mínima ideia daquilo que constitui a natureza do cosmo. Essa é a realização primária mais fundamental.

Àqueles que buscam cruzar as águas deste cosmo confuso e ilusório, e sair da agnosia, nada resta além do Caminho.

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

O PROBLEMA DA METAFÍSICA

Heidegger nos diz, em um questionamento amplo e vital, que a metafísica qua filosofia jamais será capaz de responder a pergunta vital que ele avança em sua obra: “Qual o Ser dos seres?”. Tal questionamento, se aliado ao esclarecimento de que a teoria das ideias encontradas na nossa filosofia e que perpassa o idealismo hegeliano atribui uma existência reificada e portanto falsa à representação mental e ideal, ao objeto e ideia de ser na nossa cabeça, ao contrário do “Ser” como um todo que “é” unicamente e independentemente das nossas concepções relativas Dele.

Devemos nos perguntar: se a filosofia não consegue, então, perpassar o Ser como Ser, mas apenas como ente representacional, qual o uso da filosofia como um todo? Qual o uso do racionalismo e das concepções onto-teológicas, algumas quase milenares, que perpassam nosso arcabouço cosmológico e de definições naturais?

Hegel propõe uma filosofia onde tudo é subjetivo, e portanto a sua metafísica se embasa no puro racionalismo dito subjetivo – sem uma basal metafísica que antes caracterizava o discurso filosófico.

A concepção hegeliana, em si, é derivada diretamente do dualismo cartesiano em sua tentativa de eliminar, com uma ontologia dessultória, a necessidade de efetuar julgamentos filosóficos com base no Ser e jogar tudo no campo da subjetividade.

Essa tentativa dá certo? Não, pois degrada a filosofia a um esporte meramente ideal, idealista, de ficar colando ideias no todo que saem do pensamento, que aqui é reificado em realidade. Ou seja, como num sonho, o pensamento da realidade se torna mais real que a realidade em si, e a confusão entre os dois é ampla.

Assim sendo, as tentativas do homem de criar uma filosofia puramente subjetiva fracassam, quando imputamos não somente que essa filosofia é algo puramente subjetivo, individual, a mera reificação de um ponto de vista, como também que suas bases no cogito cartesiano são puramente espúrias. Nenhum julgamento filosófico, onto-teológico, metafísico, etc… jamais poderá negar a base do Ser em que, pretensamente, se assenta ou jamais será nada mais que um julgamento subjetivo.

Afirma por exemplo, Heidegger:

“Toda a Metafísica moderna, inclusive Nietzsche, se mantém na interpretação do existente e da verdade que vem de Descartes”

E também temos, por exemplo, Tomás Melendo em sua obra:

“Sem dúvida alguma, seria possível rastrear a evolução paulatina que nos transporta, desde a posição do cogito, como fundamento primordial de todo existente, até as afirmações antimetafísicas, e por isso contra morais e nihilistas, dos atuais ultra modernos” (Tomás Melendo, Entre Moderno y Postmoderno, p. 42).

‘O que sustento é que Descartes realiza algo mais sutil. Como disse antes, o chamado pai do racionalismo obriga a consciência, em suas múltiplas manifestações, a ocupar o lugar que corresponde ao ser. Ou seja, faz do cogito a primeira consistência de tudo o que é. Não se trata, portanto, de que esse cogito gere o sum, mas que mais propriamente o substitua; e por isso, como voltarei depois a advertir, toda a realidade do eu ficará reduzida a pensamento; e daí, do pensamento como pensamento (ou das idéias nele incluídas), extrairá Descartes Deus e o mundo enquanto existentes-pensados ou pensado-existentes.

Independentemente das intenções pessoais de Descartes, sobre as quais é vão e impossível pronunciar-se, o que o princípio por ele estabelecido produziu foi uma corrente filosófica e cultural na qual o eu, em suas mais variadas formas, vai se impondo de maneira clara ainda que progressiva, até se converter no centro e no todo da inteira atividade especulativa e prática.

Este é o sentido de minha tese: o da inversão das relações entre ser e consciência, ou a substituição daquele por esta última” (Tomás Melendo ,op. cit., p.8).

“Em filosofia, Descartes marcou uma direção completamente inédita, até o ponto de que com ele começa a nova idade da Filosofia”, cujo espírito constitutivo é “o saber, o pensamento, enquanto unidade do pensar e do ser” (Apud Tomás Melendo p. 5).

E Lukács afirma: “Partindo da dúvida metódica, do cogito ergo sum de Descartes, passando por Hobbes, Spinoza, Leibnitz, há aqui um caminho de desenvolvimento retilíneo cujo motivo determinante, presente nas múltiplas variações, é a idéia de que o objeto do conhecimento pode ser conhecido por nós, porque é, na medida em que nós mesmos o produzimos” (G. Lucács, História Y Consciência de Classe, México, 1969, p. 155). Apud T. M. , p. 5)

Ou seja, existe aqui uma linha reta bem visível na qual o pensamento do Ser, a produção mental individual do Ser, substitui o Ser em si como concebido em filósofos pré-cartesianos.

Portanto a Modernidade, tentando resolver o problema do Ser que a Escolástica NÃO resolveu, acabou caindo no niilismo subjetivista e relativista. E por fim, na negação da realidade, pura e simples, confinando-a ao espectro puramente individual.

É o começo do relativismo acachapante que governa todos os domínios da nossa intelecção em nossa presente época.

Assim ainda afirma Tomas Melendo:

“Voltando ao fundo da operação cartesiana, cabe sustentar, em estrita síntese, que a supressão do ser a favor de uma consciência da qual se retirou toda substância, forçosamente tem que desembocar no nihilismo” (T. Melendo, op. cit. p. 42).


Mas o que é o Ser, afinal? Essa é a pergunta que muitos fazem. Heidegger, ou Louis Rougier, assim como Nagarjuna, os analíticos, etc… dentre vários outros. Quase todos os que tentaram, por meio da subjetivização forçosa de Descartes, ou por meio das tentativas mais tradicionais de ontologizar e fundamentar o nosso entendimento da realidade, fracassaram totalmente.

Hegel é mais um deles.

Devemos nos perguntar, afinal de contas, qual a forma mais eficiente de trazer respostas às nossas perguntas sobre a “natureza” da “realidade”, o que constitui a “Verdade” e assim por diante. Isso será tratado em um próx. Capítulo.

[...]

O problema da Realidade, em si, é um problema que abarcou as mentes e preocupações de muitos filósofos.

Para sermos mais complexos e detalhados, este problema – o da epistemologia, e da relação do sujeito cognoscente com o objeto de seu conhecimento – é um problema que abarcou todos os que lidam com filosofia desde Descartes, incluindo o próprio Hegel.

Esta relação só é uma preocupação dado o simples fato que a filosofia cartesiana, e sua sucessora, o idealismo germânico, precisam explicar o mundo conhecido em termos do “eu” como centro da cognição. Ou seja, criam uma barreira artificial e solipsista entre o “Eu” e o “Não-Eu”.

Dado esse problema, que é decisivo e central nas noções de verdade e conhecimento legadas pela filosofia dita moderna, e que abarca futilmente todas as nossas tentativas de aplicar o molde teórico subjetivista à realidade, podemos argumentar que o grande plano da Modernidade, como nos diz Tomás Melendo, fracassou em sua tentativa de emancipar-nos do mito e da religião como fundamentos basais da nossa visão do mundo.

Estamos, assim, ainda centrados nos fundamentos altamente tautológicos que Descartes e a Escolástica nos legaram para fundamentar a teologia cristã. Isso, no Ocidente, pois no Oriente – com uma cosmovisão fundamentalmente diferente, os dilemas criados pela necessidade de uma religião fundamentada na mera razão humana jamais surgiram.

De fato, tais dilemas são típicos de uma mentalidade que quer ver tudo em termos ontologísticos, considerando a realidade como fundada numa “metafísica” que representa o “fundamento” estrutural da realidade, objetificada como conceito mental capaz de ser absorvido pela mente.

Essa forma de ver o mundo, que possibilita a dicotomia sujeito-objeto e o racionalismo em primeiro lugar, demonstra-se altamente equivocada.

O que é a “realidade”, então? E porque nossos filósofos, então, são incapazes de criar este fundamento exclusivo que a transformaria em um objeto “central” e indiscutível, incapaz de cair no solipsismo fundamental de uma noção individualizada e estritamente particular do cosmo, como eles são capazes de gerar aos montes, todos em conflito uns com os outros?

Para isso veremos uma noção dita “metafísica”, no sentido de cosmológica (mas não filosófica e sim puramente intuitiva), bem elaborada por sábios como Nagarjuna, mas em si (como demonstra Alan Watts em seu tratado “O Caminho do Zen”), uma noção já bem ampla que era a visão de mundo de central por aquelas partes, independentemente de suas formulações doutrinais particulares por certos sábios e filósofos de lá, por muito tempo até o advento da modernidade. Mesmo hoje, essa visão ainda se encontra cimentada na psique dita “oriental”.

Nagarjuna, como bem sabemos, elaborou-a de uma forma bem concisa, e superior – possibilitando um entendimento objetivo da nossa parte sobre essas relações.

Vejamos estes versos da “Sabedoria Fundamental do Caminho do Meio” (Mulamadhyamakarika):

“A essência dos entes
Não está presente nas condições, etc… Se não há essência,
Não pode haver essência-em-outros”

“Quando nem existentes nem não-existentes estão estabelecidos,
Como alguém pode propor uma ‘causa produtiva’?
Se houvesse uma, ela não teria fundamento.”

[...]

“Se o efeito das essências está nas condições,
Mas as condições não têm sua própria essência,
Como pode um efeito cuja essência está nas condições
Vir de algo que não tem essência?”


“A Forma em si sem uma causa,
É impossível ou inalcançável,
Então, pense sobre a forma,
Mas não construa teorias sobre a forma”

[…]

“A asserção que causa e efeito são similares,
Não é aceitável,
A asserção que eles não são similares,
Também é inaceitável”

“Sentimentos, discriminações, disposições
E a consciência e todas essas coisas,
Devem ser concebidas da mesma maneira
Que a Forma Material”

[...]

“Quando uma análise é feita com base nos agregados vazios (n.t a realidade perceptível),
Se alguém oferecer uma resposta,
Esta resposta fracassará, pois ela pressuporá
Exatamente o que deve ser provado.”

“Quando uma explicação é feita com base nos agregados vazios
Se alguém oferecer uma resposta,
Essa resposta fracassará, pois pressuporá
Exatamente o que deve ser provado.”

Etc…

Eu iria mais longe, é claro. Devemos ter noção que só uma leitura e compreensão aprofundadas do Mulamadhyamakarika conseguirá essa realização do chamado “Sunyata”, ou “Vazio”, exatamente como cosmovisão do Budismo e da mente oriental. Mas reitero que o Mulamadhyamakarika em si, é só uma das suas melhores exposições, e não uma “escola intelectual” em si.

O que nos leva ao ponto principal: quem compreende esta doutrina, facilmente consegue conceber (vis René Guénon, por ex.) como as noções filosóficas e onto-teológicas que nos foram legados pelo racionalismo cartesiano, pela doutrina hegeliana e hegeliana-marxista, pelo idealismo germânico, pela Escolástica, etc… são tão somente o fruto de devaneios mentais, uma dita “masturbação mental” que visa conceber uma “estrutura da realidade” que não é divorciada e está intrinsecamente limitada apenas à mente de quem a concebe.

Por isso mesmo, reiteramos aqui (c.f. novamente René Guénon) que o racionalismo como concepção de homem não existe anteriormente a Descartes. Assim como a noção de um “Sistema de conhecimento”, melhor visto em Kant e Hegel, em si, é uma noção absurda que não existia na Escolástica tanto como em outras cosmovisões anteriores e ulteriores.

É impossível conter todo o nosso conhecimento dentro de um sistema fechado, assim como é impossível conceber a natureza como um sistema racional fechado. Tais noções são, em si, tautológicas e falaciosas desde o seu princípio. Se alguém fosse colocar no grão de areia das nossas cabeças aquilo que o Cosmo contém, não seria suficiente para abarcar a praia inteira cheia dessa areia.

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Jabir ibn Hayyan, Alchemista Acutissimus, Pai da Álgebra, recebe aqui também curta e singela homenagem.

Geber em Latim: https://www.4shared.com/s/ftCYC6p4Gca

Geber em Inglês: https://www.4shared.com/s/f7O48__gKca

terça-feira, 21 de novembro de 2017

As raízes da Filosofia Perene remontam a tempos tão antigos quanto os da Prisca Theologia, do Hermetismo pagão antigo.

No nosso tempo, destaca-se o esforço de místicos como Dee, Paracelso, Boehme, dentre outros - que usaram a praxis e doutrina herméticas numa tentativa de curar a divisão causada no mundo cristão pela Reforma, e numa tentativa de dar força interior a uma doutrina sem esoterismo, limitada à mera crosta dogmática exterior. Essa tentativa, malgrado o esforço imenso, falhou e gerou a Revolução Científica como refugo de uma visão de mundo que se descristianizava. 

O mundo moderno, então, para nós tradicionalistas - deve ser compreendido primeira e essencialmente como fruto das contradições internas naturais do Cristianismo. E o fim do mundo moderno, significa também essencialmente o fim do cadáver sacro da Europa e do Cristianismo, que já vão embora num momento de niilismo total e acachapante, no desvelar de uma nova Revelação.

- Rodrigo Sobota

terça-feira, 7 de novembro de 2017

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Na petrificação do mundo espiritual criada pelos sensos corpóreos, na quebra de contatos, na percepção condicionada pela lei dualista que força a separação entre “Eu” e “Não-Eu” (a qual já declaramos, constitui o principal obstáculo para a compreensão moderna das ciências tradicionais), é o poder do Sal em plena operação. Mas Sal, Corpo, Pedra e Terra, no aspecto do simbolismo hermético alvo da nossa discussão, são equivalentes. Pois então, o poder da Terra no homem é aquilo que, via o corpo físico, impõe a visão materialista do mundo.

Disso, segue um ponto essencial: o homem comum não conhece os outros Três Elementos – Água, Ar e Fogo – da forma como eles realmente o são, pois o homem comum conhece apenas o que esses Elementos representam quando se manifestam via o elemento Terrestre – ou seja, quando se fazem claros pelos processos de percepção corpórea.

Água, Ar, Fogo são então em sua forma mais conhecida (ou seja, como estados da matéria física), nada mais do que meras correspondências – ou como podemos argumentar – tangíveis simbólicos que representam os verdadeiros elementos denominados “vivos” pelos mestres herméticos.


Cf. De Pharmaco Catholico: “os filósofos, quando falam da Terra, com isso significam apenas o corpo, e pelo corpo, denotam nada mais que o Sal”;

- Julius Evola  
http://gnosis.org/welcome.html

Link para a Sociedade Gnóstica, uma sociedade com amplo fundamento e experiência no seu trabalho. Altamente recomendável!

terça-feira, 24 de outubro de 2017

https://www.4shared.com/s/fgF6yl4nNei

CURSO DE ALQUIMIA POR OLAVO DE CARVALHO
*EXCERTOS*

Altamente recomendável para todos os estudantes da Arte.
Em princípio, devemos obter atenção especial para o erro dos historiadores da Ciência que reduzem a alquimia a uma mera química em estágio infantil e mitológico. Contra esta noção, devemos recordar as exortações explícitas dos autores herméticos mais citados, para que as pessoas que os leem não se enganem interpretando-os literalmente, pois suas palavras são tiradas de uma língua secreta expressa via símbolos e alegorias.

Estes mesmos autores repetiram exaustivamente, que o objeto da nossa precisa arte é oculto, que as operações aos quais aludimos não são feitas manualmente, que seus elementos são invisíveis, e não aqueles que o vulgo reconhece. Os mesmos autores dirigem-se com desdém aos “queimadores de carvão” e afins, cuja atividade “arruinou a ciência”, e cujas manipulações não oferecem “nada além de fumaça”, e os ingênuos que se devotaram à gama de experimentos equívocos atribuídos pelos modernos como parte inseparável da ciência hermética.

Os alquimistas que verdadeiramente dominavam a sua arte sempre impuseram condições éticas e espirituais para suas operações. Tendo em vista seu senso vital de natureza, seu mundo ideal é apresentado como sendo fundamentalmente inseparável daquele outro ao qual podemos denominar de “Gnosticismo, Neoplatonismo, Cabalá, Teurgia” - tudo menos “química”.

Da mesma forma, com um grande número de fórmulas expressas sutilmente, lhe deram a entender que aqueles que leem entre as linhas, por exemplo, que o enxofre alquímico na verdade representa a vontade (segundo Basílio Valentino e o padre Pernety), que a fumaça denota a “alma, separada do corpo” (Geber), que a virilidade constitui o mistério do “arsênico” (Zosimos), e que desta forma podemos citar uma miríada de textos e autores diferentes. É assim que podem declarar os Filhos de Hermes que todos dizem a mesma coisa e repetir, orgulhosamente, “quod ubique, quod ab omnibus, et quod ab semper.”


Jacob Boehme nos atesta o axioma sobre o qual este conhecimento único se assenta. Ele consiste na dita tradição que reivindica a si mesma a universalidade e primordialidade fundamentais: “Entre o nascimento eterno, a Restauração da Queda e a descoberta da Pedra Filosófica, não há quase nenhuma diferença.”

Julius Evola: A TRADIÇÃO HERMÉTICA (Introdução)

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Estive organizando umas discussões interessantes com colegas próximos sobre a espiritualidade do Oriente. Nós nos introduzimos a muitos catecismos interessantes na arte Alquímica, mais especificamente, a “Alquimia Filosófica”, a alquimia do espírito e não a Química primitiva vulgar que frequentemente recebe esta denominação.
O assunto principal revolve sobre tratados alquímicos, principalmente aqueles de J. Evola e do padre Pernetty. Assim como eu contei ao meu amigo, Soma Vira, a Tradição Hermética é um guia bem detalhado sobre operações alquímicas.
Ele começa, como sempre, fazendo-nos focar nos horizontes amplos de uma era deveras antiga. Apresentando-nos sua interpretação histórica e metahistórica totalmente não-ortodoxa, ao menos para nós modernos, ele diz que houve uma INVOLUÇÃO progressiva, ao contrário de uma EVOLUÇÃO, das faculdades e da estrutura do ser humano desde tempos remotos e pré-históricos.
Um dos exemplos supracitados mais claros se trata da intuição dos princípios espirituais das coisas. A visão dualista moderna das coisas, ele nos diz, é um fenômeno recente. E o homem em tempos mais antigos conseguia intuir diretamente a PRIMA MATERIA aristotélica, ou a Purusa, a matéria-
“prima” ou primeira além do mundo corporal que podemos vulgarmente perceber pelos sentidos.
Com o tempo, a perda dessas faculdades intuitivas levou-nos ao uso de uma série de termos misteriosos pelos próprios alquimistas, que começaram a citar de maneira bem críptica substâncias como “NOSSO FOGO”, ou “NOSSA ÁGUA”, e assim por diante, em oposição ao fogo, água, etc… materiais da percepção vulgar. Esse é o ponto principal de estudo da Alquimia.
Para uma visão geral bem ampla do que estamos discutindo, verificamos o seguinte trecho esclarecedor:
“Tanto a Samkhya quanto a Yoga são escolas do ‘Hinduísmo’ que argumentam que há duas realidades fundamentais cuja interação principal é responsável por todas as experiências e universo – Prakriti (matéria) e Purusa (espírito). Em outras palavras, o universo é concebido como uma combinação clara entre a realidade material perceptível e princípios e leis da natureza não materiais e não-perceptíveis. A realidade material, ou Prakriti, é tudo o que está sujeito a alteração e a relações de causa e efeito. O princípio universal, ou Purusa, constitui tudo aquilo que não está sujeito a mudança ou condicionamento”
(Retirado de www.wikipedia.org)
A alquimia dita “filosófica”, presente em livros escritos há muito tempo atrás, como o “Hermetic Triumph”, “Teatrum Chemicum Britannicum”, por alquimistas árabes e helenistas, e assim por diante, assim preocupa-se primariamente em encontrar esta Purusa, e não é uma simples química primitiva.
Em breve veremos mais análises minhas sobre o assunto.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Having been having an interesting discussion on Eastern spirituality with a couple of friends.
Anyway the topic of the subject is esoteric alchemy. We have been introducing ourselves to several catechisms on the Alchemical art, most especifically the "Philosophical Alchemy", the alchemy of the spirit and not the vulgar pre-chemistry that is often labelled as such.
The main subject are Evola's and Pernetty's works on the subject. As I told my friend, Soma Vira, the Hermetic Tradition is a very comprehensive guide by Evola himself on how to study and deal with alchemical operations.

He starts, as always, by making us focus on the broad horizons of an ancient age. Forwarding his completely unorthodox (at least to us moderns) view, he says that there has been a progressive INVOLUTION, as opposed to EVOLUTION, of man's faculties and Being since remote pre-historical times.
One of the examples he cites is the awareness of the underlying spiritual principles of things. The modern dualistic view of things, he argues, is a fairly recent phenomenon. And man, once was able to grasp directly the underlying Aristotelian PRIMA MATERIA, or the PURUSA, the animating first matter behind the world of bodies that we can vulgarly grasp.
With time, however, the loss of the faculties of such intuition led to the use of a series of mysterious terms by the alchemists themselves, who began to speak cryptically of "OUR WATER", of "OUR FIRE" and so on, as opposed to the vulgar material water, fire and the likes. This is the main target of the study of alchemy.
For a quick remark of what we are talking about, let us read this:
"Both Samkhya[b] and Yoga schools of Hinduism state that there are two ultimate realities whose interaction accounts for all experiences and universe - Prakrti (matter) and Purusa (spirit).[3][10] In other words, the universe is envisioned as a combination of perceivable material reality and non-perceivable, non-material laws and principles of nature. Material reality, or Prakrti, is everything that has changed, can change and is subject to cause and effect. Universal principle, or Purusa, is that which is unchanging (aksara)[2] and is uncaused. "
"Philosophical" Alchemy, as exemplified by books written many centuries ago, like the Hermetic Triumph, Teatrum Chemicum Britannicum, by Arab and Hellenic alchemists, and so on... is thus concerned with finding this purusa, and is not a vulgar blacksmith's trade.
Next we'll talk about a blog I'm publishing in advance to cover my (hopefully long term) analysis and study of the subject.