Na hierarquia geral do conhecimento platônico, vemos que a Razão
ocupa apenas uma colocação subordinada e intermediária na grande
hierarquia do conhecimento.
A começar pela
Renascença, todos os filósofos – em principal Hegel e Descartes –
limitam a inteligência e o real ao racional, utilizando-se da
acepção guénoniana, a razão era e sempre foi impotente para
atingir a verdade absoluta, atendo-se apenas a uma verdade relativa.
Nisso, por exemplo, temos amplo paralelo não só em Platão, como
também nas doutrinas de Nagarjuna e Gaudapada sobre as ditas duas
realidades.
Segundo a acepção
platônica (A República, Teeteto, Fédon), a razão constitui um
ponto intermediário na hierarquia gnosiológica, situada acima da
doxa e do Não Ser, mas abaixo da matemática e da geometria puras
que são as expressões superiores do conhecimento dianoético – ou
conhecimento pertinente ao que é discursivo – sendo que – neste
caso, a intelectualidade autêntica seria composta do conhecimento
das Formas através da intuição intelectual.
Sendo assim vemos
que a Razão em Platão não era a “razão” dos empiricistas, nem
a deidade idolátrica dos racionalistas modernos. Ela não se fiava
no mundo sensível, pulando de ideia a ideia através de sua própria
orientação lógica: também é plausível a nós acreditarmos que
ela era atada rijamente ao paradigma geométrico e matemático do
mundo inteligível. Sendo assim, em si em vista do que já propusemos
em nosso artigo sobre a mathese platônica e pitagórica, podemos
fazer uma gradação da razão nas seguintes duas categorias hierárquicas
fundamentais:
1a: a
Razão pura, guiada pela matemática e pela lógica matemática dita
paraconsistente (vide Newton da Costa). Esta seria capaz de penetrar
o cerne da realidade do mundo inteligível, abstendo-se de qualquer
contato com o mundo sensível. Constitui-se então uma dianoia
legítima.
2a: a
Razão pura, guiada pela lógica aristotélica clássica, fiando-se
de ideia a ideia sem recurso ao mundo sensível. Esta seria a parte
mais inferior do conhecimento dianoético, senão apenas um
intermediário entre esta e a doxa pura. Seria composta de
julgamentos condicionais, de valor relativo, mas de certo forma válidos e autênticos.
Por ex: as cinco
vias de Tomás de Aquino, a prova ontológica de Abelardo, a ananke
stenai de Aristóteles. Dentre
outros.
Acreditamos,
assim, que podemos desta forma construir uma síntese hierárquica
que possa corrigir a idolatria da Razão que erroneamente tomou conta
do pensamento moderno, e atribuí-la uma capacitação hierárquica
mais precisa que possa nos dar plena compreensão das suas limitações
e de seu autêntico escopo como conhecimento – evitando-se, assim,
a idolatria que a o pensamento moderno a atribuiu injusta e
erroneamente.