segunda-feira, 10 de setembro de 2018

POEMA

Ni malus, et auri famis insatiabilis esses
Functorum nunquam voluisses mungere peras
Talis eris, qui calce teris mea busta pedester
Qualiter hic jaceo putrida, talis eris
Sis Caesar, Macedo, moderator totius Orbis
Aut Cato, vel Cicero, denique talis eris
Disce mori, quisquis referas haec scripta viator,
Aequa manent omnes funera, disce mori
Disce mori dives, discat cum paupere Rex, Grex
Doctus & indoctus, junior atque senex


(De Pharmaco Catholico PRAELVDIVM PROSIMETRICVM p.p 129 a fonte ab origine)

terça-feira, 14 de agosto de 2018

SOBRE CONHECIMENTO PROFANO VERSUS CONHECIMENTO INICIÁTICO

O problema do possível e do real parece muito simples e óbvio a mim, mas, é claro, sob a estrita condição de que devemos examiná-lo do ponto de vista denominado “metafísico” (n. do t. pode-se definir como sattvico, gnóstico, iniciático ou tradicional); é óbvio que, do ponto de vista filosófico, pode-se sempre pensar qualquer coisa de qualquer maneira e discorrer sobre qualquer problema repetidamente sem nunca alcançar uma conclusão; é mesmo aquilo que caracteriza a especulação profana, e eu nunca fui capaz de entreter qualquer interesse por esses ditos “problemas” que fundamentalmente têm apenas uma existência verbal. - René Guénon
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Sob a luz mais favorável a que podemos concedê-la, a Filosofia assim consiste na “Sabedoria Humana”, ou uma de suas formas, mas em qualquer instância ela continua sendo só isso, e por isso podemos alegar com segurança que ela é uma coisa muito pobre, uma especulação de caráter pura e meramente racional fundada sobre faculdades meramente humanas. […] Aquilo que denotamos de “razão humana” é apenas a “sabedoria humana” dos Evangelhos; então podemos declarar que não passa de “sabedoria profana”, e que o que temos sob discussão aqui não é uma sabedoria autêntica mas apenas sua sombra – e uma sombra completamente ineficiente, que se encontra frequentemente “invertida”. Pois então, a maioria das filosofias não constitui sequer uma sombra dessa Sabedoria, sob qualquer perspectiva que ousemos imaginar essa sombra como sendo de qualquer forma.

Especialmente onde as filosofias modernas estão em mente e voga, das quais mesmo os vestígios mais parcos do conhecimento tradicional autêntico se esvaneceram, tratam-se aqui apenas de um construto sem fundamentos basais discerníveis, coleções de hipóteses mais ou menos fantásticas – e finalmente, meras opiniões individuais sem qualquer importância efetiva ou qualquer semblante de autoridade doutrinal. - René Guénon

sábado, 21 de julho de 2018

RECRIANDO A MATHESIS SUPREMA

OU A FUNÇÃO DO ESOTERISMO E SUAS RAMIFICAÇÕES E SUA RELAÇÃO E DISTINÇÃO COM O CIENTIFICISMO MODERNO

I. O ESOTERISMO E SUA FUNÇÃO NA RENASCENÇA, E TAMBÉM SEU RELACIONAMENTO COM O PROTO-CIENTIFICISMO

Não podemos negligenciar o fato que a origem do cientificismo moderno, em suas dimensões prometeicas, na busca do controle e da quantificação absoluta do mundo natural, é um fenômeno que por si só deriva de raízes ocultas profundas. Peço aos leitores que conheçam melhor a historia da maçonaria contemporânea, da Royal Society, dentre outros órgãos proto-iluministas cuja função no desenvolvimento deste mesmo cientificismo foi chave fundamental. 


Dentro desta análise, devemos nos recordar que a tentativa newtoniana e cartesiana de reduzir o cosmo a uma mathesis quantitativa única e suprema não consiste em um esforço inteiramente vão, ou num ideal cego, sem a devida ancestralidade intelectual de peso mesmo em suas dimensões mais reducionistas. Para isso me refiro estritamente a duas figuras centrais: Platão e Pitágoras, cuja influência no ideal da Revolução Científica é tanto central quanto inequívoca.

Pitágoras, de fato, constitui influência central sobre Descartes. E esta influência permeia todo o meio cientificista primordial, que desde a Renascença busca uma redescoberta do esquecido legado helênico da Antiguidade, e uma rebelião epistemológica que busca quebrar com os paradigmas cosmológicos da Igreja Católica, que então há muito já se encontravam ossificados num aristotelismo engessado e limitado.

Este movimento, no qual podemos identificar próceres como Gemistos Plethon, Marcilio Ficino e Pico della Mirandolla, vai se alimentar das fontes frescas e límpidas de um hermeticismo e uma filosofia pagã já há muito esquecidos dentro do Ocidente sob o julgo latino.

Esta visão, que inclui a restauração do pitagorismo e do hermetismo, busca então revigorar as fronteiras epistemológicas de um Ocidente até então engessado nas aporias de um escolasticismo abstrato e mormemente estéril, preso nos paradigmas de uma ontoteologia limitada por problemas puramente linguísticos e de perspectiva individual e subjetiva.

Assim sendo, a visão do cosmo como mathesis, como matemática suprema, uma noção pitagórica e platônica tanto na sua origem quanto em seu cerne, ressurge no Ocidente depois de séculos desaparecida.

II. A FILOSOFIA PITAGÓRICA E SUA RELAÇÃO COM O ESOTERISMO RENASCENTISTA

Pitágoras, cuja vida é cheia de mistérios e já intrigava os antigos, era um dos mistagogos mais famosos e debatidos na Antiguidade. Tanto é que mesmo entre as escassas fontes que sobreviveram ao fim desta Antiguidade Clássica, vemos três biografias, sendo a mais reputada aquela de autoria de Diogénes Laércio.

Longe, é claro, de nos reter somente na biografia do dito cujo, vejamos as contribuições e natureza dos ensinamentos de sua escola.

a) Rejeição do Empiricismo.
b) Divisão do Mundo nas Categorias de Mundo Sensível e Inteligível.
c) A Irracionalidade do Mundo Sensível.
d) O Mundo Inteligível Como Função de Uma Aritmética Suprema.
e) O Mundo Sensível como sendo um derivado, hierarquicamente sujeito ao Mundo Inteligível.
f) Nós Conhecemos as Formas Substanciais dos Objetos Sensíveis por Meio de Relações Matemáticas no Mundo Inteligível.
g) A Relação do Mundo Inteligível e sua Harmonia Matemática com a Harmonia Musical.

Assim então, podemos verificar que a temática comum tanto no Cientificismo quanto no Hermetismo de viés Pitagórica e Platônica pode ser exemplificada de forma magistral por Filolau, que nos diz:

“TODAS AS COISAS CONHECIDAS TÊM UM NÚMERO, E ISTO PORQUE SEM ELE (O NÚMERO), NÃO SERIA POSSÍVEL QUE NADA FOSSE CONHECIDO NEM COMPREENDIDO”

A ressurreição do platonismo e do pitagorismo na Renascença, vai de encontro e oposição direta ao aristotelismo tomista dominante e sua temática inocentemente desprovida de caráter matemático e fenomenológico e centrada tão somente num empiricismo limitado (devemos a São Tomás a citação latina mais famosa do axioma empiricista da escola peripatética, de Aristóteles):

NIHIL EST IN INTELLECTU QUOD NON SIT PRIUS IN SENSU (retirado de De Veritate)

ou "Não há nada no Intelecto que não esteja primeiro nos sentidos"

Esta asserção, da qual discordamos pois somos contra o empiricismo em todas as suas versões, incluindo é claro o empiricismo simplista que veio a dominar o Ocidente depois de Hume, nos leva de encontro com o que devidamente esposamos.

Verificamos, então, que a linguagem fundamental de todo o esoterismo – aliás, de todo o conhecimento humano, até suas ramificações mais banais na ciência fisicalista, se encontra no número, no seu simbolismo, e na sua linguagem fundamental, mesmo nas dimensões em que ele se encontra claramente esquecido e negligenciado pela Ciência Moderna.

III. O CIENTIFICISMO COMO FILHOTE BASTARDO DO HERMETICISMO DA RENASCENÇA - CONCLUSÃO

Assim sendo, das sucessivas iterações desta ciência dos números e sua simbologia – ao qual denominamos de aritmosofia ou LOGOS ARYTHMOS – nascem as correntes que darão origem ao Cartesianismo com sua divisão rígida da realidade entre o objetivo matematicamente mensurável, e o subjetivo não mensurável, em detrimento de um conhecimento baseado apenas nos sentidos humanos. Esta noção é importantíssima.

Na medida em que o Cartesianismo nos liberou das especulações inocentes de uma ciência natural centrada num escolasticismo estéril e puramente especulativo, e nos abriu as portas de uma física clássica que em muito nos acrescentou em termos do nosso conhecimento físico, devemos reconhecer neste um paradigma positivo. As intuições fundamentais de Descartes não estão de todo erradas. O maior problema do Cientificismo, então, foi que à medida que seu caráter prometeico se inflou, ele se divorciou cada vez mais das raízes de sua origem hermética e simbólica, buscando apenas as relações superficiais de um mundo puramente físico, dessacralizado e mecanizado, e é exatamente por aí que vemos quando o divórcio da ciência de suas raízes cosmológicas visando apenas sua compreensão no nível substancial, e não essencial (podemos também dizer, o nível da eidos ou das formas – sem é claro que isso constitua uma adoção incondicional de certos preceitos aristotélicos), aí sim nos encontramos naquilo que consiste, por excelência, no ponto de partida para o desvio moderno e todas as suas consequências vitais para a humanidade.

E assim também podemos concluir, portanto, segundo aliás já o concluiu o brilhante autor brasileiro Mário Ferreira dos Santos, junto de alguns outros excêntricos de toda a estirpe e nota, que o nosso objetivo consiste na ressurreição da Mathesis Suprema (Mathesis Megiste) dos pitagóricos, que foi infelizmente consignada ao esquecimento pela mathesis fisicalista, secundária e inferior dos modernos.

Somente esta mathesis pode nos conceder a genuína compreensão da ciência do Real, e não as especulações filosóficas sufocantes e chinfrins de correntes tão díspares quanto o Tomismo ou o idealismo germânico, pois estas mesmas se perdem na subjetividade de seus nexos teóricos anti-matemáticos e de sua superestrutura linguística equivocada.

Assim, finalizamos este artigo com a recomendação do excelente livro de autoria de Mário Ferreira dos Santos: “Pitágoras e o Tema do Número”. 




quinta-feira, 19 de julho de 2018

RECOMENDAÇÃO

RECOMENDÁVEL: Website do estudioso e analista esotérico Jay Dyer, que também é cristão ortodoxo devoto e ciente da cosmologia palamita. https://jaysanalysis.com/

terça-feira, 26 de junho de 2018

O FIM DA ONTOTEOLOGIA E DA METAFÍSICA "OCIDENTAL", E A ADOÇÃO DO PONTO DE VISTA GNÓSTICO COMO REVOLUÇÃO PERSPECTIVA DEFINITIVA

O ponto principal dessas postagens discutindo o caráter da episteme filosófica é de servir de introdução principal ao nosso trabalho alquímico, através do questionamento basal daquilo que os modernos, e mais amplamente, a civilização ocidental – consideram como “conhecimento”.

Em suma, trata-se de uma transição necessária entre a mera episteme para a gnose, um passo necessário para todo aquele que busca a jornada pelo caminho da Gnose, do “Conhecimento”, em seu sentido mais primordial e fundamental antes da perversão dessa jornada em mera episteme, em mera ontoteologia.

Para isso, autores como Heidegger, Nietzsche, Marion, Corbin e René Guénon ocupam uma posição central, pois somente eles podem nos oferecer a perspectiva ampla o suficiente para termos em mente não só os desafios da presente época, mas como superá-la, e como adentrar no reino daquilo que constitui em si o conhecimento autêntico.

O conhecimento autêntico é o caráter de poucos. Pois embora a filosofia ocidental esteja permeada de princípios gnósticos, principalmente em autores do dito idealismo germânico como Hegel e Schelling, a gnose em si é algo que ilude o pensamento moderno tanto em sua dimensão quanto em sua autenticidade e até na sua própria necessidade.

Em outras palavras, quando o homem passou a confundir a ontoteologia com conhecimento supremo – algo que existe desde as origens do logocentrismo ocidental, quando adotamos essa perspectiva heideggeriana e também guenoniana em mente, sabemos que aqui existe o ponto de divergência principal entre o conhecimento que era marca das sociedades ditas “tradicionais”, centrado numa Tradição com face exotérica e esotérica, e o “conhecimento” discursivo, teórico e externo dos modernos, que se cimenta com o ponto de vista analítico e se agrava com o racionalismo absoluto e o subjetivismo.

É importante termos isso em mente. Pois antes de Hegel, que localiza o centro da episteme no sujeito cognoscente, e antes de Descartes, que similarmente divide o mundo num dualismo rígido entre sujeito cognoscente e objeto, o racionalismo como episteme ainda não tinha a maturidade e o prestígio suficientes para decolar como cosmovisão de uma civilização inteira.

Embora em Aristóteles, nos gregos e na Escolástica já se prefigure um “racionalismo” meio primordial, tal racionalismo era muito bem contido não só por aspectos dogmáticos, mas pela própria percepção de seus limites ontológicos e epistêmicos dentro de uma busca pelo conhecimento. A intuição, mesmo aquela intuição direcionada à construção de juízos fundacionais ontoteológicos, era considerada mais importante que a razão em diversos aspectos – como exemplo claro disso, temos a intuitio intellectualis, a intuição postulada por alguns escolásticos de nota, como Duns Scot e seus seguidores.

Com o advento da modernidade, a Razão passa a destruir esses limites hierárquicos a que estava sujeita e passa a se arrogar como única juíza de todo o conhecimento humano. Esse é um passo necessário quando todos os pontos de vista, sejam eles religiosos ou intuitivos, são apagados em nome dos juízos da razão subjetiva e individual.

O que a maioria dos modernos não percebe, mas que já foi devidamente avaliado e detectado por mestres do pensamento como Heidegger, Guénon, e seus discípulos das mais variadas proveniências, é que o racionalismo ocidental contém dentro de si os germes da própria destruição. Essa destruição do chamado “logocentrismo” ocidental, a começar pelo advento do pós-modernismo, é um daqueles processos quase invisíveis, mas inevitáveis, do desenvolvimento da sociedade contemporânea e da transformação da Modernidade em Pós-Modernidade. Em outras palavras, e mais sucintamente, o racionalismo já carrega dentro de si as sementes tanto do modernismo, quanto da aniquilação pós-moderna do homem no niilismo absoluto. 
Sendo assim, devemos ver que Nietzsche e Heidegger, além de profetas e estudiosos do niilismo ocidental, foram também os profetas da mais radical destruição e desconstrução do conhecimento ocidental moderno – algo que frequentemente não é realizado pelo homem comum, mas que já é levado a cabo há décadas e tem como sintomas mais claros as próprias ramificações do pós-modernismo em si, onde até mesmo o sentido claro de certas palavras básicas é questionado a esmo, esmiuçado e por fim, negado.

Em outras palavras, no pós-modernismo ocorre a consumação do racionalismo ocidental em um niilismo absoluto, que simultaneamente significa sua completa dissolução, conforme o prevera Heidegger.

A superação do niilismo ocidental, como jornada tanto ampla quanto microcósmica, pelo indivíduo pós-moderno que busca a superação do status confuso que se encontra quando busca uma espiritualidade, é assim a missão de todo o tradicionalista. E esta missão envolve a capacidade não só de voltar a fazer julgamentos claros sobre certo e errado, como discernir amplamente as tendências do niilismo e da relativização ampla do conhecimento na história da civilização, além da superação definitiva dos paradigmas civilizacionais da modernidade na busca de uma perspectiva nova e mais clara do ser humano e de si mesmo.

É uma jornada de conhecimento, de “conhecer a si mesmo”.

Assim sendo, o buscador alquímico não se contenta em deixar de lado o racionalismo puramente subjetivo dos modernos, como também empreende em deixar de lado o arcabouço ontoteológico da metafísica ocidental, que se encontra no processo de consumação da sua própria falência em nossos tempos. Em outras palavras, ele supera a si mesmo como indivíduo logocêntrico, e abre-se a um modo de conhecimento e uma cosmovisão completamente diferentes, mas bem mais sadias, práticas, operacionais e bem menos abstratas, especulativas, irreais e mormemente relativistas, limitadas, etc…

Em suma, o homem tradicionalista busca primeiramente saciar a sede de conhecimento de todo o ser humano nas fontes da Gnose autêntica, e não de uma filosofia estéril e em vias de se finalizar. Isso o impede de cair na estagnação moral e pessoal a que essas filosofias inevitavelmente conduzem.

Fontes:

Ontotheology? Understanding Heidegger’s
Destruktion of Metaphysics”

terça-feira, 19 de junho de 2018

A VISÃO ALQUIMICA PRIMORDIAL X A VISÃO MODERNA E CIENTIFICISTA DO COSMO

A ilusão do evolucionismo é, em si, um fruto da dessacralização da natureza que criou o mecanicismo e o dualismo cartesianismo em primeiro lugar.

Analisando alguns dos arguments tomistas do prof. Edward Feser, principalmente com relação às noções mecanicistas de Paley e à dita teoria da "complexidade especificada" proposta por alguns círculos do Design Inteligente, me veem à cabeça que Feser está certo dentro de sua própria perspectiva particular. Você precisa de muita pachorra pra acreditar nos que falam em negar, de forma absoluta, todos os processos de causalidade vertical ou transcendental, enquanto dá poderes quase divinos a certos processos causais puramente imanentes e randômicos. Você também acha que consegue sumarizar o que é a causalidade e a totalidade dessas causas que o homem pode discernir dentro de um simples sistema fechado, seja ele imanentista ou mais "metafísico", quando tu se ilude fundamentalmente a respeito disso. (leiam o Mulamadhyamakarika).

Sem querer entrar na lama das disputas entre as milhares de visões ontoteológicas contraditórias, incluindo as visões que fizeram parte do arcabouço ultra-racionalista do Cristianismo ocidental antes do advento do cientificismo moderno, apenas afirmo que para o homem moderno - imerso numa noção panteísta, mecanicista e puramente naturalista, morta e dessacralizada do cosmo - a(s) noção(ões) de causalidade, inteligência, mente, espírito, matéria, etc... foi(ram) [etc...] irremediavelmente distorcida e virou senso comum quase que incontestável aceitar certas concepções finais sem cabimento sobre a natureza e o homem que jamais seriam aceitas sob qualquer ótica intelectualmente razoável ou em qualquer sociedade dita "tradicional", no termo guenoniano da palavra.

De fato, essas coisas foram tão osmotizadas pelo discurso moderno, que contestá-las virou algo até exótico, se analisarmos sob uma ótica geral, uma coisa que a maioria da sociedade atribuiria a lunáticos ou pessoas excepcionalmente reacionárias ou supersticiosas. É uma coisa tão repetida a esmo, tão papagaiada e doutrinada que até mesmo seus oponentes mais ferozes acabam por resvalar nela, de forma inconsciente, nas suas perenes disputas intelectuais. Tal é o caso de William Dembski, sobre quem Edward Feser discorre em seus contra-argumentos ao Design Inteligente.

De fato, e pra sumarizar isso de forma sucinta, o professor Feser acerta em dizer que um dos maiores problemas da noção mecanicista da natureza consiste numa redução de todos os processos imanentes a meros fatos brutos em sequência, nus, crus e desconexos, coisa que os proponentes da teoria do Design Inteligente adotam de forma irrefletiva e inconsciente, e também incorreta. Nisso, está, justamente, a postura suicida daqueles que querem ver a complexidade de certas características acidentais como evidência "irredutível" de um design puramente externalista, pelo Criador, enquanto que ignoram ou simplesmente negam a ordenação eficiente de causas como sinal mais potente de telos vertical e transcendental no Cosmo e na Natureza como um todo - ainda que como toda a visão ontológica - algo ainda essencialmente circunstancial. Pra eles, o mundo é só um relógio morto, que fica fazendo tic-tac o tempo inteiro, sem nenhum propósito ou fim, e tudo isso dentro de uma autossuficiência quase que pura e intocável - onde a sequência de eventos em si, como fato bruto, constitui numa sucessão explanatória adequada a si mesmo e ao todo - coisa completamente absurda e falaciosa, mas enfim.

O problema em si é que o o materialismo cientificista, o mecanicismo, em si, embora tenham zero valor e significância como moldes sistemáticos explanatórios, historicamente servem uma função pelo menos útil: o de desviar a atenção da metafísica para questões mais práticas e mais acessíveis ao limitado intelecto humano - coisas que por exemplo a ciência moderna nas suas ramificações fisicalistas e biológicas lida. Se tu for ver o tipo de debate que os Escolásticos ou os Brahmins no tempo de Buda faziam, você vai entender o que eu estou falando. O problema maior em si, consiste - sempre - na reificação daquilo que é apenas um ponto de vista particular e essencialista dentro de um molde ontologístico particular que de repente passa a encompassar tudo magicamente. Em outras palavras, o problema de todos esses debates, e a raiz principal e inconsciente do subjetivismo moderno, consiste na adoção da ontologia-qua-metafísica - na ontoteologia como Heidegger a concebia, para os mais perspicazes terem noção do que estou falando - precisamente na reificação dessa ontologia em algo mais que um objeto discursivo e perspectivo em si, em suma na adoção daquilo que Nagarjuna chamaria de ponto de vista substancial, absolutista e eternalista - usado por esses intelectuais como uma barreira ilusória à perspectiva essencialmente niilista e igualmente extremista do mecanicismo moderno. Esse é um problema primordial, e um problema no qual o professor Feser resvala centralmente na sua adoção do ponto de vista especulativo aristotélico-tomista, que ultimamente devemos rejeitar, embora concordemos em parte com sua metodologia, argumentos e análises e sua crítica total ao ponto de vista mecanicista.

Devemos concluir que antigamente o ponto de vista mecanicista não era prevalente. A natureza em si era vista como possuindo certas características e atributos inequivocamente verticais, transcendentais e "divinos" - seja nos numina, nos antigos Lares (ou Lases), ou na cultuação de certos deuses do fogo, da água, dos elementos, etc... Tudo isso, principalmente se adotarmos a ótica revolucionária de J. Evola sobre o assunto, mas também se nos atermos a uma simples perspectiva aristotélica do Cosmo, nos leva a concluir que a natureza possuía - em tempos menos materializados, dessacralizados e niilistas - uma certa característica, certas potências e um ordenamento que fogem em muito à percepção e ao senso comum dos modernos, confinados que estão à visão do cosmo como um relógio gigante e nada mais.

domingo, 10 de junho de 2018

A Filosofia Não Tem Respostas Para Suas Ânsias Existenciais

O maior problema de todo o âmbito intelectual dos pensadores modernos, em suas tentativas de provar ou refutar Deus ou conceitos teológicos, consiste no fato que toda a asserção logicamente dedutiva que fazem é por si só de âmbito contingente, limitado e apenas circunstancial.

Esse é o problema de todo o sistema filosófico em si: suas conclusões não parecem nem totalmente reais nem totalmente irreais, mas tão somente uma contingência que pode ser reforçada ou quebrada segundo uma míriada de pontos de vista diferentes.

De fato, o mais seguro seria afirmar que toda e qualquer tentativa de criar um sistema filosófico está fadada ao fracasso, quando a linguagem é o maior obstáculo na suposta relação deste sistema com a realidade em torno dele.

Assim, nenhum argumento filosófico jamais vai "provar" a existência de Deus, senão fornecer-nos com talvez um número suficiente de evidências puramente circunstanciais que nos oferecem um motivo e um assento para crer.

Nenhum sistema metafísico qua filosófico se assenta em nada mais que fundações puramente circunstanciais, e mormemente, relativas a ponto de vista, linguagem, orientação, e assim por diante. É impossível argumentar que existe uma base completamente racional para os nossos atos, ou para a existência, ou que a ciência desta base seja compreensível de qualquer forma segundo os métodos dedutivos que temos. Com isso, e complementando que a metolodogia cientificista jamais vai ter escopo suficiente para distinguir questões filosóficas, não há uma maneira segura de o homem discernir o verdadeiro do falso que não esteja sujeita a fatores puramente pessoais.

Isso em si serve para enterrar não apenas os defensores do cientificismo e do racionalismo, como também aqueles que acreditam piamente nos moldes de uma metafísica ou de uma cosmologia puramente teórica que pode ser extrapolada dedutivamente em bases puramente abstratas, justificando conceitos puramente reificados como "essência", "substância" e assim por diante. Tais coisas não passam de meros nomes, e sua realidade é diretamente proporcional somente àquilo que nos é conferido pela nossa própria percepção individual, somente.

O racionalismo, em si, é fruto da Metafísica. Mas quando essa metafísica se quebra, com o que ficamos? Apenas com pontos de vista individuais. Isso sumariza 99% dos debates que vemos sobre esses assuntos. Se a Razão fosse tão potente, ela não seria tão fragmentada, mas de fato ela não o é. Como não existe síntese racional adequada para a nossa compreensão, não podemos falar que o homem tem um conhecimento adequado de mais do que um sem número de factóides mal arranjados, sem organização ou propósito superior que os defina além de sua existência nua e crua. Isso está na raiz do problema da dessacralização do mundo: o número de fatos que descobrimos de maneira alguma nos leva a conclusões superiores sobre seu telos ou sua função intelectual, nos deixando um vazio claro na nossa busca pelo pleno sentido das coisas. À nossa intelectualidade caída, resta apenas contar pedrinhas, sem saber distinguir o Bem do Mal, ou aquilo que é verdadeiramente fundamental mas que perpetuamente ilude o intelecto decaído.

quarta-feira, 6 de junho de 2018

BITOLADO - PORQUE VOCÊ NÃO DEVE PERDER TEMPO COM O DEBATE EVOLUCIONISMO X CRIACIONISMO

Analisando e re-analisando as teorias modernas de origem da vida, notadamente as derivadas do famoso experimento de Miller-Urey, vemos os problemas principais do cientificismo moderno. Um cientificismo que atribui a causas puramente aleatórias o surgimento da vida, e que ainda luta para explicar problemas básicos como a stase evolucionária das espécies, que surgem e desaparecem de repente nos estratos biológicos sem o gradualismo pressuposto no darwinismo clássico, etc... A pior pergunta é: se a vida pode ser, sim, o resultado de processos puramente espontâneos e naturalistas, envolvendo tais aminoácidos, tal "sopa primordial" e tais relâmpagos, porque as condições mais básicas de laboratório foram incapazes de criar vida como a conhecemos? Porque a própria noção de abiogênese foi provada como incorreta pela própria Ciência? 

Enfim, sem querer entrar nas babaquices que normalmente se travestem de biologia nos debates entre criacionistas e evolucionistas, podemos verificar que tanto a teoria do equilíbrio pontuado quanto o neo-Darwinismo ainda apresentam contradições vitais. Mesmo com os tais "fósseis de transição", é muito difícil provar como uma espécie de repente vira outra somente na base de um longo período de tempo e de variações puramente randômicas de seu código genético. E sem contar que a vida é mais do que isso: cientificistas frequentemente utilizam uma cosmologia ultra-reducionista, que basicamente reduz a vida ao status de um computador complexo - quando sabemos com bastante certeza que computadores em si são incapazes de terem qualquer forma de auto-consciência e são limitados a uma arquitetura opaca, binária e determinista, sem os elementos básicos que a consciência humana tem como fundamento basal - elementos como a intencionalidade, descrita em Husserl e Brentano (vide meu artigo abaixo, em inglês).

A complexidade da vida na terra, e o fato que a Terra, em si, é um planeta que não só tem as condições mais próprias para a vida como também *abarca* a dita cuja, sendo mais do que um planetoide morto à deriva no espaço como tantos outros, é um dos maiores mistérios que o homem contemporâneo não conseguiu responder satisfatoriamente tendo seus meios puramente físicos à disposição.

Ao meu ver, tanto a teoria do Design Inteligente quanto o Cientificismo são posições tentadoras para os modernos, mas em si ambas altamente equivocadas. Ambas pressupõem um mecanicismo fundamental, tanto é que não existe lá uma grande diferença entre Dawkins e Paley - os dois proponentes da teoria do relojoeiro e dos equívocos fundamentais dessa dita cuja.

O ser humano moderno aparentemente se esquece também que a composição do ser humano, do indivíduo como tal (vamos utilizar a exótica palavra jiva, aqui, do hinduísmo), é mais do que a soma, do que o mero agregado de suas partes em concerto. De fato, uma breve e cursoria leitura do argumento Neoplatonista do Uno (que estou traduzindo para o Português) destrói essa noção de forma muito concisa. O todo jamais pode ser redutível apenas à soma de suas partes em qualquer organismo. 

Isso sem falar que ambos os lados ignoram - previsivelmente - os dilemas gerados pela dita parapsicologia. E quando falo em "parapsicologia", me refiro a algo mais que o psiquismo cru a que a maioria das pessoas que entram nesse campo se restringem. O ser humano, sendo um composto de agregados visivelmente psíquicos e imateriais, jamais pode ser comparado a um relógio puramente mecânico mesmo nos seus agregados psíquicos mais residuais.

Finalmente, devemos ter em conta que nenhum desses modernos tem o nível de sofisticação cosmológica e profundidade de compreensão que qualquer místico ou mesmo qualquer fakir da Índia ou da Pérsia ou alhures tem. Essa falta de noção é óbvia quando analisamos um Corbin ou um Guénon da vida, ou mesmo lemos um livro sobre esoterismo islâmico ou hindu.

O fato é que para um guenonete básico, que lê os argumentos do mestre que provam que o nível dos debates no mundo moderno é resultado de uma degeneração conceitual, espiritual, moral e intelectual enormes, não deve senão intuir a profunda exatidão dessa averiguação. Tanto é que a episteme moderna é niilista por excelência, sendo incapaz de explicar a níveis mais fundamentais coisas como o que é conhecimento, percepção, realidade, ser e assim por diante.

O homem moderno é uma mente pensante, túrbida e agitada presa dentro das correntes da própria subjetividade, que o cegam de forma total às realidades do mundo ao redor dele. Isso dá origem a conceitos (ilusórios, diga-se de passagem) de uma natureza puramente morta, mecânica, inerte, aprisionada dentro de paradigmas teóricos que viram o misticismo cru e superficial dos debates entre design inteligente e evolucionismo.