Texto ótimo de OdeC sobre o assunto, um dos seletos textos de qualidade que citamos aqui, com suas devidas fontes e referências e com a devida autorização.
A unidade de sujeito
e objeto
Retirado de: http://old.olavodecarvalho.org/apostilas/sujobj.htm
O ciclo filosófico moderno começa com o giro
de atenção que Descartes imprime ao pensamento, desviando-o da
certeza "ingênua" do mundo exterior para o terreno supostamente firme
do cogito. Daí por diante, o sujeito, considerado enquanto alma
solitária que dialoga consigo mesma num ambiente vazio de seres e coisas,
será tomado como o ponto arquimédico de toda meditação
filosófica. O sujeito solitário está aí ligado diretamente
à universalidade de Deus, e, garantido por esta, pode extrair de si mesmo,
por dedução, a ciência inteira de Deus, do cosmos e dele
próprio. É o que fará Spinoza, levando às últimas
conseqüências o dedutivismo solitário e o desprezo pela experiência
do mundo exterior.
É verdade que, em reação a esse extremismo
solipsístico, surge na Inglaterra a escola dita empirista, que, de Locke
a Hume, não admitirá outro ponto de apoio senão as sensações,
consideradas atomísticamente, de cuja somatória indutiva (o único
procedimento admitido) não se poderá obter a certeza de verdades
universais ou mesmo a da unidade do próprio eu pensante.
Aparentemente, esta escola rejeita o primado do eu e nos coloca,
portanto, fora do domínio cartesiano. Mas isto é uma impressão
falsa. Na verdade, o empirismo não enfoca os objetos do mundo exterior
senão como ocasião das sensações; e como
as sensações se dão no sujeito, isso resulta em
nunca encarar esses objetos diretamente, senão sempre pelo viés
do sujeito.
O subjetivismo é a marca de toda a filosofia dita moderna,
pouco diferindo nisto as duas escolas rivais, racionalista e empirista.
Tanto assim é que a confluência final dessas
duas escolas, realizada na filosofia crítica de Kant, resulta em fazer
do sujeito, por intermédio das formas a priori, o molde e razão
da própria unidade do mundo. O objeto enquanto tal recua para a distância
inatingível da "coisa-em-si", definida, por sua vez, como aquilo que
o objeto é independentemente do que o sujeito sabe dele, isto é,
definida, ainda uma vez, pela sua dependência (ainda que negativa) do
sujeito.
A prioridade do sujeito em relação ao objeto
é, pois, a constante inabalável do ciclo filosófico moderno.
Se quisermos portanto ir um passo além, só nos restam dois caminhos.
O primeiro é negar o sujeito mesmo, esfarelando até mesmo a unidade
puramente subjetiva que nos foi legada por Kant. Este é o caminho seguido
pela psicanálise, pela filosofia analítica, pelo desconstrucionismo.
O segundo caminho é restaurar o estatuto ontológico do objeto.
Husserl tentou este caminho, mas, ainda prisioneiro do cartesianismo, voltou
a tomar como ponto de partida a consciência solipsística e nunca
mais pôde se livrar das conseqüências inapelavelmente idealistas
a que este enfoque conduz.
O caminho para a restauração do objeto deve,
no meu entender, tomar uma direção radicalmente diversa.
Esse caminho consiste em negar desde logo a prioridade gnoseológica
do sujeito mediante a simples constatação de que ele não
poderia ser sujeito se não fosse também objeto. Para prosseguirmos
nesta linha de considerações é necessário no entanto
definir desde logo o que se entende por sujeito e por objeto, e as definições
que proponho são as mais simples que se pode imaginar: sujeito (do conhecimento)
é o que recebe informações, objeto é aquilo que
as emite, ao menos no entender do sujeito. Assim definidos os termos, compreendemos
de imediato que o sujeito, considerado apenas e estritamente enquanto sujeito,
distinto e separado de todo objeto, nada poderia saber, pois não teria
nem a si próprio como objeto do seu conhecimento. O ego cogitans
cartesiano não pode ser, pois, puro sujeito, na medida em que algo sabe
de si e tem portanto a si próprio como objeto.
De modo mais geral, nenhum puro sujeito é concebível,
pois este somente receberia informações sem emiti-las nunca, e
portanto nada poderia saber a respeito do que quer que fosse, nem mesmo a respeito
de si próprio, e, no instante mesmo em que se definisse como puro sujeito
cognoscente estaria afirmando eo ipso que nada conhece, não podendo,
pois, ser sujeito cognoscente.
De outro lado, e complementarmente, é inconcebível
o puro objeto, que apenas emitisse informações sem receber
nenhuma, pois isto equivaleria a um puro agir sem qualquer feed back,
o que é contraditório com a noção mesma de continuidade
da ação no tempo e só poderia cumprir-se na hipótese,
intrinsecamente absurda, de uma ação sem duração.
Ora, se o sujeito cognoscente não pode ser o que é
sem ser também objeto, e se de outro lado o objeto não pode ser
um radical não-sujeito, a conclusão fatal é que a condição
de sujeito e a de objeto se exigem reciprocamente e não se separam senão
in verbis. Na melhor das hipóteses, sujeito e objeto são
nomes de funções que, porém, para ser exercidas, se requerem
mutuamente não só no sujeito como também no objeto, possuindo
cada um deles ambas as funções e só podendo ser sujeito
e objeto um para o outro porque cada um deles é em si ambas as
coisas.
Até o momento, todas as tentativas de reunir sujeito
e objeto — como por exemplo no realismo escolástico ou na fenomenologia
— tentaram fazê-lo na relação entre um sujeito dado
e um objeto dado. Mas é evidente que esta união não se
poderia realizar no plano da mera relação se já não
estivesse dada na constituição mesma do sujeito (que é
inseparavelmente objeto), bem como na do objeto (que é inseparavelmente
sujeito).
Ora, toda dúvida cética com relação
ao conhecimento humano surge precisamente da hipótese de um hiato entre
sujeito e objeto, hipótese que, não podendo ser provada, não
pode também ser contestada a partir do momento em que, no estudo dessa
relação, se tome por ponto de partida o sujeito cognoscente em
estado puro (solipsístico) e se tomem os termos da relação
como se fossem, um, o puro sujeito cognoscente, o outro, o puro objeto conhecido.
Não há aqui como saltar o abismo entre a representação,
que estará sempre e fatalmente no sujeito, e o objeto representado
que estará sempre e por hipótese fora dele.
Mas, se compreendemos que a união de sujeito e objeto
não deve ser buscada na relação e sim, antes dela,
na constituição de cada um deles — ou seja, nas constituições
respectivas de dois entes que são, cada um por si, inseparavelmente sujeitos
e objetos —, então compreendemos também que uma união que
está na constituição mesma de um ente não pode ser
desfeita pela simples relação que ele contraia com um outro ente;
e que, ao contrário, esta relação não pode fazer
senão manifestar, pela reciprocidade das informações emitidas
e recebidas, a união indissolúvel de sujeito e objeto, agora considerada
não em cada um desses entes tomado separadamente, mas na inter-relação
do subjetivo-objetivo de um com o subjetivo-objetivo de outro. Esta relação
é o que denominamos conhecimento, e ela é essencialmente
união de sujeito e objeto, não cabendo operar sobre ela a disjunção
céptica senão in verbis. Eis aí, de um relance,
toda dúvida céptica reduzida a mero jogo de palavras. De quebra,
eis aí derrubadas para sempre as muralhas da prisão subjetivista
e, junto com elas, as colunas do palácio kantiano.
Que aqueles que têm olhos para ver consigam perceber
as tremendas conseqüências filosóficas dessas constações,
e que compreendam residir aí o verdadeiro princípio de toda ciência.