segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

O PROBLEMA DA METAFÍSICA

Heidegger nos diz, em um questionamento amplo e vital, que a metafísica qua filosofia jamais será capaz de responder a pergunta vital que ele avança em sua obra: “Qual o Ser dos seres?”. Tal questionamento, se aliado ao esclarecimento de que a teoria das ideias encontradas na nossa filosofia e que perpassa o idealismo hegeliano atribui uma existência reificada e portanto falsa à representação mental e ideal, ao objeto e ideia de ser na nossa cabeça, ao contrário do “Ser” como um todo que “é” unicamente e independentemente das nossas concepções relativas Dele.

Devemos nos perguntar: se a filosofia não consegue, então, perpassar o Ser como Ser, mas apenas como ente representacional, qual o uso da filosofia como um todo? Qual o uso do racionalismo e das concepções onto-teológicas, algumas quase milenares, que perpassam nosso arcabouço cosmológico e de definições naturais?

Hegel propõe uma filosofia onde tudo é subjetivo, e portanto a sua metafísica se embasa no puro racionalismo dito subjetivo – sem uma basal metafísica que antes caracterizava o discurso filosófico.

A concepção hegeliana, em si, é derivada diretamente do dualismo cartesiano em sua tentativa de eliminar, com uma ontologia dessultória, a necessidade de efetuar julgamentos filosóficos com base no Ser e jogar tudo no campo da subjetividade.

Essa tentativa dá certo? Não, pois degrada a filosofia a um esporte meramente ideal, idealista, de ficar colando ideias no todo que saem do pensamento, que aqui é reificado em realidade. Ou seja, como num sonho, o pensamento da realidade se torna mais real que a realidade em si, e a confusão entre os dois é ampla.

Assim sendo, as tentativas do homem de criar uma filosofia puramente subjetiva fracassam, quando imputamos não somente que essa filosofia é algo puramente subjetivo, individual, a mera reificação de um ponto de vista, como também que suas bases no cogito cartesiano são puramente espúrias. Nenhum julgamento filosófico, onto-teológico, metafísico, etc… jamais poderá negar a base do Ser em que, pretensamente, se assenta ou jamais será nada mais que um julgamento subjetivo.

Afirma por exemplo, Heidegger:

“Toda a Metafísica moderna, inclusive Nietzsche, se mantém na interpretação do existente e da verdade que vem de Descartes”

E também temos, por exemplo, Tomás Melendo em sua obra:

“Sem dúvida alguma, seria possível rastrear a evolução paulatina que nos transporta, desde a posição do cogito, como fundamento primordial de todo existente, até as afirmações antimetafísicas, e por isso contra morais e nihilistas, dos atuais ultra modernos” (Tomás Melendo, Entre Moderno y Postmoderno, p. 42).

‘O que sustento é que Descartes realiza algo mais sutil. Como disse antes, o chamado pai do racionalismo obriga a consciência, em suas múltiplas manifestações, a ocupar o lugar que corresponde ao ser. Ou seja, faz do cogito a primeira consistência de tudo o que é. Não se trata, portanto, de que esse cogito gere o sum, mas que mais propriamente o substitua; e por isso, como voltarei depois a advertir, toda a realidade do eu ficará reduzida a pensamento; e daí, do pensamento como pensamento (ou das idéias nele incluídas), extrairá Descartes Deus e o mundo enquanto existentes-pensados ou pensado-existentes.

Independentemente das intenções pessoais de Descartes, sobre as quais é vão e impossível pronunciar-se, o que o princípio por ele estabelecido produziu foi uma corrente filosófica e cultural na qual o eu, em suas mais variadas formas, vai se impondo de maneira clara ainda que progressiva, até se converter no centro e no todo da inteira atividade especulativa e prática.

Este é o sentido de minha tese: o da inversão das relações entre ser e consciência, ou a substituição daquele por esta última” (Tomás Melendo ,op. cit., p.8).

“Em filosofia, Descartes marcou uma direção completamente inédita, até o ponto de que com ele começa a nova idade da Filosofia”, cujo espírito constitutivo é “o saber, o pensamento, enquanto unidade do pensar e do ser” (Apud Tomás Melendo p. 5).

E Lukács afirma: “Partindo da dúvida metódica, do cogito ergo sum de Descartes, passando por Hobbes, Spinoza, Leibnitz, há aqui um caminho de desenvolvimento retilíneo cujo motivo determinante, presente nas múltiplas variações, é a idéia de que o objeto do conhecimento pode ser conhecido por nós, porque é, na medida em que nós mesmos o produzimos” (G. Lucács, História Y Consciência de Classe, México, 1969, p. 155). Apud T. M. , p. 5)

Ou seja, existe aqui uma linha reta bem visível na qual o pensamento do Ser, a produção mental individual do Ser, substitui o Ser em si como concebido em filósofos pré-cartesianos.

Portanto a Modernidade, tentando resolver o problema do Ser que a Escolástica NÃO resolveu, acabou caindo no niilismo subjetivista e relativista. E por fim, na negação da realidade, pura e simples, confinando-a ao espectro puramente individual.

É o começo do relativismo acachapante que governa todos os domínios da nossa intelecção em nossa presente época.

Assim ainda afirma Tomas Melendo:

“Voltando ao fundo da operação cartesiana, cabe sustentar, em estrita síntese, que a supressão do ser a favor de uma consciência da qual se retirou toda substância, forçosamente tem que desembocar no nihilismo” (T. Melendo, op. cit. p. 42).


Mas o que é o Ser, afinal? Essa é a pergunta que muitos fazem. Heidegger, ou Louis Rougier, assim como Nagarjuna, os analíticos, etc… dentre vários outros. Quase todos os que tentaram, por meio da subjetivização forçosa de Descartes, ou por meio das tentativas mais tradicionais de ontologizar e fundamentar o nosso entendimento da realidade, fracassaram totalmente.

Hegel é mais um deles.

Devemos nos perguntar, afinal de contas, qual a forma mais eficiente de trazer respostas às nossas perguntas sobre a “natureza” da “realidade”, o que constitui a “Verdade” e assim por diante. Isso será tratado em um próx. Capítulo.

[...]

O problema da Realidade, em si, é um problema que abarcou as mentes e preocupações de muitos filósofos.

Para sermos mais complexos e detalhados, este problema – o da epistemologia, e da relação do sujeito cognoscente com o objeto de seu conhecimento – é um problema que abarcou todos os que lidam com filosofia desde Descartes, incluindo o próprio Hegel.

Esta relação só é uma preocupação dado o simples fato que a filosofia cartesiana, e sua sucessora, o idealismo germânico, precisam explicar o mundo conhecido em termos do “eu” como centro da cognição. Ou seja, criam uma barreira artificial e solipsista entre o “Eu” e o “Não-Eu”.

Dado esse problema, que é decisivo e central nas noções de verdade e conhecimento legadas pela filosofia dita moderna, e que abarca futilmente todas as nossas tentativas de aplicar o molde teórico subjetivista à realidade, podemos argumentar que o grande plano da Modernidade, como nos diz Tomás Melendo, fracassou em sua tentativa de emancipar-nos do mito e da religião como fundamentos basais da nossa visão do mundo.

Estamos, assim, ainda centrados nos fundamentos altamente tautológicos que Descartes e a Escolástica nos legaram para fundamentar a teologia cristã. Isso, no Ocidente, pois no Oriente – com uma cosmovisão fundamentalmente diferente, os dilemas criados pela necessidade de uma religião fundamentada na mera razão humana jamais surgiram.

De fato, tais dilemas são típicos de uma mentalidade que quer ver tudo em termos ontologísticos, considerando a realidade como fundada numa “metafísica” que representa o “fundamento” estrutural da realidade, objetificada como conceito mental capaz de ser absorvido pela mente.

Essa forma de ver o mundo, que possibilita a dicotomia sujeito-objeto e o racionalismo em primeiro lugar, demonstra-se altamente equivocada.

O que é a “realidade”, então? E porque nossos filósofos, então, são incapazes de criar este fundamento exclusivo que a transformaria em um objeto “central” e indiscutível, incapaz de cair no solipsismo fundamental de uma noção individualizada e estritamente particular do cosmo, como eles são capazes de gerar aos montes, todos em conflito uns com os outros?

Para isso veremos uma noção dita “metafísica”, no sentido de cosmológica (mas não filosófica e sim puramente intuitiva), bem elaborada por sábios como Nagarjuna, mas em si (como demonstra Alan Watts em seu tratado “O Caminho do Zen”), uma noção já bem ampla que era a visão de mundo de central por aquelas partes, independentemente de suas formulações doutrinais particulares por certos sábios e filósofos de lá, por muito tempo até o advento da modernidade. Mesmo hoje, essa visão ainda se encontra cimentada na psique dita “oriental”.

Nagarjuna, como bem sabemos, elaborou-a de uma forma bem concisa, e superior – possibilitando um entendimento objetivo da nossa parte sobre essas relações.

Vejamos estes versos da “Sabedoria Fundamental do Caminho do Meio” (Mulamadhyamakarika):

“A essência dos entes
Não está presente nas condições, etc… Se não há essência,
Não pode haver essência-em-outros”

“Quando nem existentes nem não-existentes estão estabelecidos,
Como alguém pode propor uma ‘causa produtiva’?
Se houvesse uma, ela não teria fundamento.”

[...]

“Se o efeito das essências está nas condições,
Mas as condições não têm sua própria essência,
Como pode um efeito cuja essência está nas condições
Vir de algo que não tem essência?”


“A Forma em si sem uma causa,
É impossível ou inalcançável,
Então, pense sobre a forma,
Mas não construa teorias sobre a forma”

[…]

“A asserção que causa e efeito são similares,
Não é aceitável,
A asserção que eles não são similares,
Também é inaceitável”

“Sentimentos, discriminações, disposições
E a consciência e todas essas coisas,
Devem ser concebidas da mesma maneira
Que a Forma Material”

[...]

“Quando uma análise é feita com base nos agregados vazios (n.t a realidade perceptível),
Se alguém oferecer uma resposta,
Esta resposta fracassará, pois ela pressuporá
Exatamente o que deve ser provado.”

“Quando uma explicação é feita com base nos agregados vazios
Se alguém oferecer uma resposta,
Essa resposta fracassará, pois pressuporá
Exatamente o que deve ser provado.”

Etc…

Eu iria mais longe, é claro. Devemos ter noção que só uma leitura e compreensão aprofundadas do Mulamadhyamakarika conseguirá essa realização do chamado “Sunyata”, ou “Vazio”, exatamente como cosmovisão do Budismo e da mente oriental. Mas reitero que o Mulamadhyamakarika em si, é só uma das suas melhores exposições, e não uma “escola intelectual” em si.

O que nos leva ao ponto principal: quem compreende esta doutrina, facilmente consegue conceber (vis René Guénon, por ex.) como as noções filosóficas e onto-teológicas que nos foram legados pelo racionalismo cartesiano, pela doutrina hegeliana e hegeliana-marxista, pelo idealismo germânico, pela Escolástica, etc… são tão somente o fruto de devaneios mentais, uma dita “masturbação mental” que visa conceber uma “estrutura da realidade” que não é divorciada e está intrinsecamente limitada apenas à mente de quem a concebe.

Por isso mesmo, reiteramos aqui (c.f. novamente René Guénon) que o racionalismo como concepção de homem não existe anteriormente a Descartes. Assim como a noção de um “Sistema de conhecimento”, melhor visto em Kant e Hegel, em si, é uma noção absurda que não existia na Escolástica tanto como em outras cosmovisões anteriores e ulteriores.

É impossível conter todo o nosso conhecimento dentro de um sistema fechado, assim como é impossível conceber a natureza como um sistema racional fechado. Tais noções são, em si, tautológicas e falaciosas desde o seu princípio. Se alguém fosse colocar no grão de areia das nossas cabeças aquilo que o Cosmo contém, não seria suficiente para abarcar a praia inteira cheia dessa areia.

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