terça-feira, 24 de outubro de 2017

Em princípio, devemos obter atenção especial para o erro dos historiadores da Ciência que reduzem a alquimia a uma mera química em estágio infantil e mitológico. Contra esta noção, devemos recordar as exortações explícitas dos autores herméticos mais citados, para que as pessoas que os leem não se enganem interpretando-os literalmente, pois suas palavras são tiradas de uma língua secreta expressa via símbolos e alegorias.

Estes mesmos autores repetiram exaustivamente, que o objeto da nossa precisa arte é oculto, que as operações aos quais aludimos não são feitas manualmente, que seus elementos são invisíveis, e não aqueles que o vulgo reconhece. Os mesmos autores dirigem-se com desdém aos “queimadores de carvão” e afins, cuja atividade “arruinou a ciência”, e cujas manipulações não oferecem “nada além de fumaça”, e os ingênuos que se devotaram à gama de experimentos equívocos atribuídos pelos modernos como parte inseparável da ciência hermética.

Os alquimistas que verdadeiramente dominavam a sua arte sempre impuseram condições éticas e espirituais para suas operações. Tendo em vista seu senso vital de natureza, seu mundo ideal é apresentado como sendo fundamentalmente inseparável daquele outro ao qual podemos denominar de “Gnosticismo, Neoplatonismo, Cabalá, Teurgia” - tudo menos “química”.

Da mesma forma, com um grande número de fórmulas expressas sutilmente, lhe deram a entender que aqueles que leem entre as linhas, por exemplo, que o enxofre alquímico na verdade representa a vontade (segundo Basílio Valentino e o padre Pernety), que a fumaça denota a “alma, separada do corpo” (Geber), que a virilidade constitui o mistério do “arsênico” (Zosimos), e que desta forma podemos citar uma miríada de textos e autores diferentes. É assim que podem declarar os Filhos de Hermes que todos dizem a mesma coisa e repetir, orgulhosamente, “quod ubique, quod ab omnibus, et quod ab semper.”


Jacob Boehme nos atesta o axioma sobre o qual este conhecimento único se assenta. Ele consiste na dita tradição que reivindica a si mesma a universalidade e primordialidade fundamentais: “Entre o nascimento eterno, a Restauração da Queda e a descoberta da Pedra Filosófica, não há quase nenhuma diferença.”

Julius Evola: A TRADIÇÃO HERMÉTICA (Introdução)

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