sábado, 21 de julho de 2018

RECRIANDO A MATHESIS SUPREMA

OU A FUNÇÃO DO ESOTERISMO E SUAS RAMIFICAÇÕES E SUA RELAÇÃO E DISTINÇÃO COM O CIENTIFICISMO MODERNO

I. O ESOTERISMO E SUA FUNÇÃO NA RENASCENÇA, E TAMBÉM SEU RELACIONAMENTO COM O PROTO-CIENTIFICISMO

Não podemos negligenciar o fato que a origem do cientificismo moderno, em suas dimensões prometeicas, na busca do controle e da quantificação absoluta do mundo natural, é um fenômeno que por si só deriva de raízes ocultas profundas. Peço aos leitores que conheçam melhor a historia da maçonaria contemporânea, da Royal Society, dentre outros órgãos proto-iluministas cuja função no desenvolvimento deste mesmo cientificismo foi chave fundamental. 


Dentro desta análise, devemos nos recordar que a tentativa newtoniana e cartesiana de reduzir o cosmo a uma mathesis quantitativa única e suprema não consiste em um esforço inteiramente vão, ou num ideal cego, sem a devida ancestralidade intelectual de peso mesmo em suas dimensões mais reducionistas. Para isso me refiro estritamente a duas figuras centrais: Platão e Pitágoras, cuja influência no ideal da Revolução Científica é tanto central quanto inequívoca.

Pitágoras, de fato, constitui influência central sobre Descartes. E esta influência permeia todo o meio cientificista primordial, que desde a Renascença busca uma redescoberta do esquecido legado helênico da Antiguidade, e uma rebelião epistemológica que busca quebrar com os paradigmas cosmológicos da Igreja Católica, que então há muito já se encontravam ossificados num aristotelismo engessado e limitado.

Este movimento, no qual podemos identificar próceres como Gemistos Plethon, Marcilio Ficino e Pico della Mirandolla, vai se alimentar das fontes frescas e límpidas de um hermeticismo e uma filosofia pagã já há muito esquecidos dentro do Ocidente sob o julgo latino.

Esta visão, que inclui a restauração do pitagorismo e do hermetismo, busca então revigorar as fronteiras epistemológicas de um Ocidente até então engessado nas aporias de um escolasticismo abstrato e mormemente estéril, preso nos paradigmas de uma ontoteologia limitada por problemas puramente linguísticos e de perspectiva individual e subjetiva.

Assim sendo, a visão do cosmo como mathesis, como matemática suprema, uma noção pitagórica e platônica tanto na sua origem quanto em seu cerne, ressurge no Ocidente depois de séculos desaparecida.

II. A FILOSOFIA PITAGÓRICA E SUA RELAÇÃO COM O ESOTERISMO RENASCENTISTA

Pitágoras, cuja vida é cheia de mistérios e já intrigava os antigos, era um dos mistagogos mais famosos e debatidos na Antiguidade. Tanto é que mesmo entre as escassas fontes que sobreviveram ao fim desta Antiguidade Clássica, vemos três biografias, sendo a mais reputada aquela de autoria de Diogénes Laércio.

Longe, é claro, de nos reter somente na biografia do dito cujo, vejamos as contribuições e natureza dos ensinamentos de sua escola.

a) Rejeição do Empiricismo.
b) Divisão do Mundo nas Categorias de Mundo Sensível e Inteligível.
c) A Irracionalidade do Mundo Sensível.
d) O Mundo Inteligível Como Função de Uma Aritmética Suprema.
e) O Mundo Sensível como sendo um derivado, hierarquicamente sujeito ao Mundo Inteligível.
f) Nós Conhecemos as Formas Substanciais dos Objetos Sensíveis por Meio de Relações Matemáticas no Mundo Inteligível.
g) A Relação do Mundo Inteligível e sua Harmonia Matemática com a Harmonia Musical.

Assim então, podemos verificar que a temática comum tanto no Cientificismo quanto no Hermetismo de viés Pitagórica e Platônica pode ser exemplificada de forma magistral por Filolau, que nos diz:

“TODAS AS COISAS CONHECIDAS TÊM UM NÚMERO, E ISTO PORQUE SEM ELE (O NÚMERO), NÃO SERIA POSSÍVEL QUE NADA FOSSE CONHECIDO NEM COMPREENDIDO”

A ressurreição do platonismo e do pitagorismo na Renascença, vai de encontro e oposição direta ao aristotelismo tomista dominante e sua temática inocentemente desprovida de caráter matemático e fenomenológico e centrada tão somente num empiricismo limitado (devemos a São Tomás a citação latina mais famosa do axioma empiricista da escola peripatética, de Aristóteles):

NIHIL EST IN INTELLECTU QUOD NON SIT PRIUS IN SENSU (retirado de De Veritate)

ou "Não há nada no Intelecto que não esteja primeiro nos sentidos"

Esta asserção, da qual discordamos pois somos contra o empiricismo em todas as suas versões, incluindo é claro o empiricismo simplista que veio a dominar o Ocidente depois de Hume, nos leva de encontro com o que devidamente esposamos.

Verificamos, então, que a linguagem fundamental de todo o esoterismo – aliás, de todo o conhecimento humano, até suas ramificações mais banais na ciência fisicalista, se encontra no número, no seu simbolismo, e na sua linguagem fundamental, mesmo nas dimensões em que ele se encontra claramente esquecido e negligenciado pela Ciência Moderna.

III. O CIENTIFICISMO COMO FILHOTE BASTARDO DO HERMETICISMO DA RENASCENÇA - CONCLUSÃO

Assim sendo, das sucessivas iterações desta ciência dos números e sua simbologia – ao qual denominamos de aritmosofia ou LOGOS ARYTHMOS – nascem as correntes que darão origem ao Cartesianismo com sua divisão rígida da realidade entre o objetivo matematicamente mensurável, e o subjetivo não mensurável, em detrimento de um conhecimento baseado apenas nos sentidos humanos. Esta noção é importantíssima.

Na medida em que o Cartesianismo nos liberou das especulações inocentes de uma ciência natural centrada num escolasticismo estéril e puramente especulativo, e nos abriu as portas de uma física clássica que em muito nos acrescentou em termos do nosso conhecimento físico, devemos reconhecer neste um paradigma positivo. As intuições fundamentais de Descartes não estão de todo erradas. O maior problema do Cientificismo, então, foi que à medida que seu caráter prometeico se inflou, ele se divorciou cada vez mais das raízes de sua origem hermética e simbólica, buscando apenas as relações superficiais de um mundo puramente físico, dessacralizado e mecanizado, e é exatamente por aí que vemos quando o divórcio da ciência de suas raízes cosmológicas visando apenas sua compreensão no nível substancial, e não essencial (podemos também dizer, o nível da eidos ou das formas – sem é claro que isso constitua uma adoção incondicional de certos preceitos aristotélicos), aí sim nos encontramos naquilo que consiste, por excelência, no ponto de partida para o desvio moderno e todas as suas consequências vitais para a humanidade.

E assim também podemos concluir, portanto, segundo aliás já o concluiu o brilhante autor brasileiro Mário Ferreira dos Santos, junto de alguns outros excêntricos de toda a estirpe e nota, que o nosso objetivo consiste na ressurreição da Mathesis Suprema (Mathesis Megiste) dos pitagóricos, que foi infelizmente consignada ao esquecimento pela mathesis fisicalista, secundária e inferior dos modernos.

Somente esta mathesis pode nos conceder a genuína compreensão da ciência do Real, e não as especulações filosóficas sufocantes e chinfrins de correntes tão díspares quanto o Tomismo ou o idealismo germânico, pois estas mesmas se perdem na subjetividade de seus nexos teóricos anti-matemáticos e de sua superestrutura linguística equivocada.

Assim, finalizamos este artigo com a recomendação do excelente livro de autoria de Mário Ferreira dos Santos: “Pitágoras e o Tema do Número”. 




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