OU A FUNÇÃO DO
ESOTERISMO E SUAS RAMIFICAÇÕES E SUA RELAÇÃO E DISTINÇÃO COM O
CIENTIFICISMO MODERNO
I. O ESOTERISMO E
SUA FUNÇÃO NA RENASCENÇA, E TAMBÉM SEU RELACIONAMENTO COM O
PROTO-CIENTIFICISMO
Não podemos
negligenciar o fato que a origem do cientificismo moderno, em suas
dimensões prometeicas, na busca do controle e da quantificação
absoluta do mundo natural, é um fenômeno que por si só deriva de
raízes ocultas profundas. Peço aos leitores que conheçam melhor a
historia da maçonaria contemporânea, da Royal Society, dentre
outros órgãos proto-iluministas cuja função no desenvolvimento
deste mesmo cientificismo foi chave fundamental.
Dentro desta
análise, devemos nos recordar que a tentativa newtoniana e
cartesiana de reduzir o cosmo a uma mathesis quantitativa única e
suprema não consiste em um esforço inteiramente vão, ou num ideal
cego, sem a devida ancestralidade intelectual de peso mesmo em suas
dimensões mais reducionistas. Para isso me refiro estritamente a
duas figuras centrais: Platão e Pitágoras, cuja influência no
ideal da Revolução Científica é tanto central quanto inequívoca.
Pitágoras, de fato,
constitui influência central sobre Descartes. E esta influência
permeia todo o meio cientificista primordial, que desde a Renascença
busca uma redescoberta do esquecido legado helênico da Antiguidade,
e uma rebelião epistemológica que busca quebrar com os paradigmas
cosmológicos da Igreja Católica, que então há muito já se
encontravam ossificados num aristotelismo engessado e limitado.
Este movimento, no
qual podemos identificar próceres como Gemistos Plethon, Marcilio
Ficino e Pico della Mirandolla, vai se alimentar das fontes frescas e
límpidas de um hermeticismo e uma filosofia pagã já há muito
esquecidos dentro do Ocidente sob o julgo latino.
Esta visão, que
inclui a restauração do pitagorismo e do hermetismo, busca então
revigorar as fronteiras epistemológicas de um Ocidente até então
engessado nas aporias de um escolasticismo abstrato e mormemente
estéril, preso nos paradigmas de uma ontoteologia limitada por
problemas puramente linguísticos e de perspectiva individual e
subjetiva.
Assim sendo, a visão
do cosmo como mathesis, como matemática suprema, uma noção
pitagórica e platônica tanto na sua origem quanto em seu cerne,
ressurge no Ocidente depois de séculos desaparecida.
II. A FILOSOFIA
PITAGÓRICA E SUA RELAÇÃO COM O ESOTERISMO RENASCENTISTA
Pitágoras, cuja
vida é cheia de mistérios e já intrigava os antigos, era um dos
mistagogos mais famosos e debatidos na Antiguidade. Tanto é que
mesmo entre as escassas fontes que sobreviveram ao fim desta
Antiguidade Clássica, vemos três biografias, sendo a mais reputada
aquela de autoria de Diogénes Laércio.
Longe, é claro, de
nos reter somente na biografia do dito cujo, vejamos as contribuições
e natureza dos ensinamentos de sua escola.
a) Rejeição do
Empiricismo.
b) Divisão do Mundo
nas Categorias de Mundo Sensível e Inteligível.
c) A Irracionalidade
do Mundo Sensível.
d) O Mundo
Inteligível Como Função de Uma Aritmética Suprema.
e) O Mundo Sensível
como sendo um derivado, hierarquicamente sujeito ao Mundo
Inteligível.
f) Nós Conhecemos
as Formas Substanciais dos Objetos Sensíveis por Meio de Relações
Matemáticas no Mundo Inteligível.
g) A Relação do
Mundo Inteligível e sua Harmonia Matemática com a Harmonia Musical.
Assim então,
podemos verificar que a temática comum tanto no Cientificismo quanto
no Hermetismo de viés Pitagórica e Platônica pode ser
exemplificada de forma magistral por Filolau, que nos diz:
“TODAS AS COISAS
CONHECIDAS TÊM UM NÚMERO, E ISTO PORQUE SEM ELE (O NÚMERO), NÃO
SERIA POSSÍVEL QUE NADA FOSSE CONHECIDO NEM COMPREENDIDO”
A ressurreição do
platonismo e do pitagorismo na Renascença, vai de encontro e
oposição direta ao aristotelismo tomista dominante e sua temática
inocentemente desprovida de caráter matemático e fenomenológico e
centrada tão somente num empiricismo limitado (devemos a São Tomás
a citação latina mais famosa do axioma empiricista da escola
peripatética, de Aristóteles):
NIHIL EST IN
INTELLECTU QUOD NON SIT PRIUS IN SENSU (retirado de De Veritate)
ou "Não há nada no Intelecto que não esteja primeiro nos sentidos"
ou "Não há nada no Intelecto que não esteja primeiro nos sentidos"
Esta asserção, da
qual discordamos pois somos contra o empiricismo em todas as suas
versões, incluindo é claro o empiricismo simplista que veio a
dominar o Ocidente depois de Hume, nos leva de encontro com o que
devidamente esposamos.
Verificamos, então,
que a linguagem fundamental de todo o esoterismo – aliás, de todo
o conhecimento humano, até suas ramificações mais banais na
ciência fisicalista, se encontra no número, no seu simbolismo, e na
sua linguagem fundamental, mesmo nas dimensões em que ele se
encontra claramente esquecido e negligenciado pela Ciência Moderna.
III. O CIENTIFICISMO
COMO FILHOTE BASTARDO DO HERMETICISMO DA RENASCENÇA - CONCLUSÃO
Assim sendo, das
sucessivas iterações desta ciência dos números e sua simbologia –
ao qual denominamos de aritmosofia ou LOGOS ARYTHMOS – nascem as
correntes que darão origem ao Cartesianismo com sua divisão rígida
da realidade entre o objetivo matematicamente mensurável, e o
subjetivo não mensurável, em detrimento de um conhecimento baseado
apenas nos sentidos humanos. Esta noção é importantíssima.
Na medida em que o
Cartesianismo nos liberou das especulações inocentes de uma ciência
natural centrada num escolasticismo estéril e puramente
especulativo, e nos abriu as portas de uma física clássica que em
muito nos acrescentou em termos do nosso conhecimento físico,
devemos reconhecer neste um paradigma positivo. As intuições
fundamentais de Descartes não estão de todo erradas. O maior
problema do Cientificismo, então, foi que à medida que seu caráter
prometeico se inflou, ele se divorciou cada vez mais das raízes de
sua origem hermética e simbólica, buscando apenas as relações
superficiais de um mundo puramente físico, dessacralizado e
mecanizado, e é exatamente por aí que vemos quando o divórcio da
ciência de suas raízes cosmológicas visando apenas sua compreensão
no nível substancial, e não essencial (podemos também dizer, o
nível da eidos ou das formas – sem é claro que isso constitua uma
adoção incondicional de certos preceitos aristotélicos), aí sim
nos encontramos naquilo que consiste, por excelência, no ponto de
partida para o desvio moderno e todas as suas consequências vitais
para a humanidade.
E assim também
podemos concluir, portanto, segundo aliás já o concluiu o brilhante
autor brasileiro Mário Ferreira dos Santos, junto de alguns outros
excêntricos de toda a estirpe e nota, que o nosso objetivo consiste
na ressurreição da Mathesis Suprema (Mathesis Megiste) dos
pitagóricos, que foi infelizmente consignada ao esquecimento pela
mathesis fisicalista, secundária e inferior dos modernos.
Somente esta
mathesis pode nos conceder a genuína compreensão da ciência do
Real, e não as especulações filosóficas sufocantes e chinfrins de
correntes tão díspares quanto o Tomismo ou o idealismo germânico,
pois estas mesmas se perdem na subjetividade de seus nexos teóricos
anti-matemáticos e de sua superestrutura linguística equivocada.
Assim, finalizamos
este artigo com a recomendação do excelente livro de autoria de
Mário Ferreira dos Santos: “Pitágoras e o Tema do Número”.


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