O ponto principal
dessas postagens discutindo o caráter da episteme filosófica é de
servir de introdução principal ao nosso trabalho alquímico,
através do questionamento basal daquilo que os modernos, e mais
amplamente, a civilização ocidental – consideram como
“conhecimento”.
Em suma, trata-se de
uma transição necessária entre a mera episteme para a gnose, um
passo necessário para todo aquele que busca a jornada pelo caminho
da Gnose, do “Conhecimento”, em seu sentido mais primordial e
fundamental antes da perversão dessa jornada em mera episteme, em
mera ontoteologia.
Para isso, autores
como Heidegger, Nietzsche, Marion, Corbin e René Guénon ocupam uma
posição central, pois somente eles podem nos oferecer a perspectiva
ampla o suficiente para termos em mente não só os desafios da
presente época, mas como superá-la, e como adentrar no reino
daquilo que constitui em si o conhecimento autêntico.
O conhecimento
autêntico é o caráter de poucos. Pois embora a filosofia ocidental
esteja permeada de princípios gnósticos, principalmente em autores
do dito idealismo germânico como Hegel e Schelling, a gnose em si é
algo que ilude o pensamento moderno tanto em sua dimensão quanto em
sua autenticidade e até na sua própria necessidade.
Em outras palavras,
quando o homem passou a confundir a ontoteologia com conhecimento
supremo – algo que existe desde as origens do logocentrismo
ocidental, quando adotamos essa perspectiva heideggeriana e também
guenoniana em mente, sabemos que aqui
existe o ponto de divergência principal entre o conhecimento que era
marca das sociedades ditas “tradicionais”, centrado numa Tradição
com face exotérica e esotérica, e o “conhecimento” discursivo,
teórico e externo dos modernos, que se cimenta com o ponto de vista
analítico e se agrava com o racionalismo absoluto e o subjetivismo.
É importante termos
isso em mente. Pois antes de Hegel, que localiza o centro da episteme
no sujeito cognoscente, e antes de Descartes, que similarmente divide
o mundo num dualismo rígido entre sujeito cognoscente e objeto, o
racionalismo como episteme ainda não tinha a maturidade e o
prestígio suficientes para decolar como cosmovisão de uma
civilização inteira.
Embora em
Aristóteles, nos gregos e na Escolástica já se prefigure um
“racionalismo” meio primordial, tal racionalismo era muito bem
contido não só por aspectos dogmáticos, mas pela própria
percepção de seus limites ontológicos e epistêmicos dentro de uma
busca pelo conhecimento. A intuição, mesmo aquela intuição
direcionada à construção de juízos fundacionais ontoteológicos,
era considerada mais importante que a razão em diversos aspectos –
como exemplo claro disso, temos a intuitio intellectualis, a intuição postulada por alguns escolásticos de nota, como Duns Scot e seus seguidores.
Com o advento da
modernidade, a Razão passa a destruir esses limites hierárquicos a
que estava sujeita e passa a se arrogar como única juíza de todo o
conhecimento humano. Esse é um passo necessário quando todos os
pontos de vista, sejam eles religiosos ou intuitivos, são apagados
em nome dos juízos da razão subjetiva e individual.
O que a maioria dos
modernos não percebe, mas que já foi devidamente avaliado e
detectado por mestres do pensamento como Heidegger, Guénon, e seus
discípulos das mais variadas proveniências, é que o racionalismo
ocidental contém dentro de si os germes da própria destruição.
Essa destruição do chamado “logocentrismo” ocidental, a começar
pelo advento do pós-modernismo, é um daqueles processos quase
invisíveis, mas inevitáveis, do desenvolvimento da sociedade
contemporânea e da transformação da Modernidade em
Pós-Modernidade. Em outras palavras, e mais sucintamente, o
racionalismo já carrega dentro de si as sementes tanto do
modernismo, quanto da aniquilação pós-moderna do homem no niilismo
absoluto.
Sendo assim, devemos
ver que Nietzsche e Heidegger, além de profetas e estudiosos do
niilismo ocidental, foram também os profetas da mais radical
destruição e desconstrução do conhecimento ocidental moderno –
algo que frequentemente não é realizado pelo homem comum, mas que
já é levado a cabo há décadas e tem como sintomas mais claros as
próprias ramificações do pós-modernismo em si, onde até mesmo o
sentido claro de certas palavras básicas é questionado a esmo, esmiuçado e por
fim, negado.
Em outras palavras,
no pós-modernismo ocorre a consumação do racionalismo ocidental em
um niilismo absoluto, que simultaneamente significa sua completa
dissolução, conforme o prevera Heidegger.
A superação do
niilismo ocidental, como jornada tanto ampla quanto microcósmica,
pelo indivíduo pós-moderno que busca a superação do status
confuso que se encontra quando busca uma espiritualidade, é assim a
missão de todo o tradicionalista. E esta missão envolve a
capacidade não só de voltar a fazer julgamentos claros sobre certo
e errado, como discernir amplamente as tendências do niilismo e da
relativização ampla do conhecimento na história da civilização,
além da superação definitiva dos paradigmas civilizacionais da
modernidade na busca de uma perspectiva nova e mais clara do ser
humano e de si mesmo.
É uma jornada de
conhecimento, de “conhecer a si mesmo”.
Assim sendo, o
buscador alquímico não se contenta em deixar de lado o racionalismo
puramente subjetivo dos modernos, como também empreende em deixar de
lado o arcabouço ontoteológico da metafísica ocidental, que se
encontra no processo de consumação da sua própria falência em
nossos tempos. Em outras palavras, ele supera a si mesmo como
indivíduo logocêntrico, e abre-se a um modo de conhecimento e uma
cosmovisão completamente diferentes, mas bem mais sadias, práticas,
operacionais e bem menos abstratas, especulativas, irreais e
mormemente relativistas, limitadas, etc…
Em suma, o homem
tradicionalista busca primeiramente saciar a sede de conhecimento de
todo o ser humano nas fontes da Gnose autêntica, e não de uma
filosofia estéril e em vias de se finalizar. Isso o impede de cair
na estagnação moral e pessoal a que essas filosofias
inevitavelmente conduzem.
Fontes:
“Ontotheology?
Understanding Heidegger’s
Destruktion
of Metaphysics”
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