terça-feira, 26 de junho de 2018

O FIM DA ONTOTEOLOGIA E DA METAFÍSICA "OCIDENTAL", E A ADOÇÃO DO PONTO DE VISTA GNÓSTICO COMO REVOLUÇÃO PERSPECTIVA DEFINITIVA

O ponto principal dessas postagens discutindo o caráter da episteme filosófica é de servir de introdução principal ao nosso trabalho alquímico, através do questionamento basal daquilo que os modernos, e mais amplamente, a civilização ocidental – consideram como “conhecimento”.

Em suma, trata-se de uma transição necessária entre a mera episteme para a gnose, um passo necessário para todo aquele que busca a jornada pelo caminho da Gnose, do “Conhecimento”, em seu sentido mais primordial e fundamental antes da perversão dessa jornada em mera episteme, em mera ontoteologia.

Para isso, autores como Heidegger, Nietzsche, Marion, Corbin e René Guénon ocupam uma posição central, pois somente eles podem nos oferecer a perspectiva ampla o suficiente para termos em mente não só os desafios da presente época, mas como superá-la, e como adentrar no reino daquilo que constitui em si o conhecimento autêntico.

O conhecimento autêntico é o caráter de poucos. Pois embora a filosofia ocidental esteja permeada de princípios gnósticos, principalmente em autores do dito idealismo germânico como Hegel e Schelling, a gnose em si é algo que ilude o pensamento moderno tanto em sua dimensão quanto em sua autenticidade e até na sua própria necessidade.

Em outras palavras, quando o homem passou a confundir a ontoteologia com conhecimento supremo – algo que existe desde as origens do logocentrismo ocidental, quando adotamos essa perspectiva heideggeriana e também guenoniana em mente, sabemos que aqui existe o ponto de divergência principal entre o conhecimento que era marca das sociedades ditas “tradicionais”, centrado numa Tradição com face exotérica e esotérica, e o “conhecimento” discursivo, teórico e externo dos modernos, que se cimenta com o ponto de vista analítico e se agrava com o racionalismo absoluto e o subjetivismo.

É importante termos isso em mente. Pois antes de Hegel, que localiza o centro da episteme no sujeito cognoscente, e antes de Descartes, que similarmente divide o mundo num dualismo rígido entre sujeito cognoscente e objeto, o racionalismo como episteme ainda não tinha a maturidade e o prestígio suficientes para decolar como cosmovisão de uma civilização inteira.

Embora em Aristóteles, nos gregos e na Escolástica já se prefigure um “racionalismo” meio primordial, tal racionalismo era muito bem contido não só por aspectos dogmáticos, mas pela própria percepção de seus limites ontológicos e epistêmicos dentro de uma busca pelo conhecimento. A intuição, mesmo aquela intuição direcionada à construção de juízos fundacionais ontoteológicos, era considerada mais importante que a razão em diversos aspectos – como exemplo claro disso, temos a intuitio intellectualis, a intuição postulada por alguns escolásticos de nota, como Duns Scot e seus seguidores.

Com o advento da modernidade, a Razão passa a destruir esses limites hierárquicos a que estava sujeita e passa a se arrogar como única juíza de todo o conhecimento humano. Esse é um passo necessário quando todos os pontos de vista, sejam eles religiosos ou intuitivos, são apagados em nome dos juízos da razão subjetiva e individual.

O que a maioria dos modernos não percebe, mas que já foi devidamente avaliado e detectado por mestres do pensamento como Heidegger, Guénon, e seus discípulos das mais variadas proveniências, é que o racionalismo ocidental contém dentro de si os germes da própria destruição. Essa destruição do chamado “logocentrismo” ocidental, a começar pelo advento do pós-modernismo, é um daqueles processos quase invisíveis, mas inevitáveis, do desenvolvimento da sociedade contemporânea e da transformação da Modernidade em Pós-Modernidade. Em outras palavras, e mais sucintamente, o racionalismo já carrega dentro de si as sementes tanto do modernismo, quanto da aniquilação pós-moderna do homem no niilismo absoluto. 
Sendo assim, devemos ver que Nietzsche e Heidegger, além de profetas e estudiosos do niilismo ocidental, foram também os profetas da mais radical destruição e desconstrução do conhecimento ocidental moderno – algo que frequentemente não é realizado pelo homem comum, mas que já é levado a cabo há décadas e tem como sintomas mais claros as próprias ramificações do pós-modernismo em si, onde até mesmo o sentido claro de certas palavras básicas é questionado a esmo, esmiuçado e por fim, negado.

Em outras palavras, no pós-modernismo ocorre a consumação do racionalismo ocidental em um niilismo absoluto, que simultaneamente significa sua completa dissolução, conforme o prevera Heidegger.

A superação do niilismo ocidental, como jornada tanto ampla quanto microcósmica, pelo indivíduo pós-moderno que busca a superação do status confuso que se encontra quando busca uma espiritualidade, é assim a missão de todo o tradicionalista. E esta missão envolve a capacidade não só de voltar a fazer julgamentos claros sobre certo e errado, como discernir amplamente as tendências do niilismo e da relativização ampla do conhecimento na história da civilização, além da superação definitiva dos paradigmas civilizacionais da modernidade na busca de uma perspectiva nova e mais clara do ser humano e de si mesmo.

É uma jornada de conhecimento, de “conhecer a si mesmo”.

Assim sendo, o buscador alquímico não se contenta em deixar de lado o racionalismo puramente subjetivo dos modernos, como também empreende em deixar de lado o arcabouço ontoteológico da metafísica ocidental, que se encontra no processo de consumação da sua própria falência em nossos tempos. Em outras palavras, ele supera a si mesmo como indivíduo logocêntrico, e abre-se a um modo de conhecimento e uma cosmovisão completamente diferentes, mas bem mais sadias, práticas, operacionais e bem menos abstratas, especulativas, irreais e mormemente relativistas, limitadas, etc…

Em suma, o homem tradicionalista busca primeiramente saciar a sede de conhecimento de todo o ser humano nas fontes da Gnose autêntica, e não de uma filosofia estéril e em vias de se finalizar. Isso o impede de cair na estagnação moral e pessoal a que essas filosofias inevitavelmente conduzem.

Fontes:

Ontotheology? Understanding Heidegger’s
Destruktion of Metaphysics”

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